11/11/2006
Ano 10 - Número 502

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 


CURIÓS
 

 

Creio que a figura humana que melhor caracteriza o espírito da Ilha não é o pescador, tampouco a rendeira, mas o Homem com o seu curió. Antigamente era mais comum vê-lo por aí, mas hoje ainda é possível encontrá-lo, aos domingos, no depois da lida, a andar pelas ruas, carregando uma gaiola.

O curioso é que o motivo da andança é levar o bichinho a passear e apresentá-lo orgulhosamente aos outros do lugar, gabar-se da sua plumagem e, sobretudo, dos seus trinados e solfejos. Coisa de homens muito simples, quase ingênuos. Virou culto, de tão arraigado no espírito ilhéu. E culto necessita de lugar especial, por isso os amantes dos curiós inventaram um lugar, ao qual chamaram de “Curiódromo”.

O nome é feio, tem apelo comercial – lembra autódromo, camelódromo e sambódromo –, mas não se iludam os desavisados, nem os preservacionistas militantes; aquilo é um templo, um lugar de adoração e de louvor à beleza do canto dos curiós e à relação dos homens com os pássaros.

Ainda que pareça um despropósito, e é, aprisionar em nome do amor, ainda mais um pássaro criado por Nosso Senhor para voar e cumprir a sina de semeador, ainda que isso seja condenável do ponto de vista de quem pensa e sente diferente, e eu me incluo entre esses, acho que consegui, certa vez, entrar em conexão com a magia que une esses homens simples e seus pássaros numa relação tão peculiar.

Era fim de outono, começo de inverno, o dia amanheceu bonito, mas, no final da manhã, fechou de repente, como resultado de uma frente fria vinda na garupa do Vento Sul. Eu me dirigia ao centro da Cidade, de ônibus.

A chuva caiu. Chuva com vento é fogo-na-rôpa, a gente não tem escapatória, não tem sombrinha, casaco e nem cabelo que cumpram a sua função. Cada vivente que entrava no ônibus vinha encharcado e reclamando. O ônibus apinhado, e o cobrador pedindo – Um passinho à frente aí, fazendo o favor... (na época entrava-se pela porta de trás, por isso “o passinho à frente”).

De repente, ali na altura do antigo Hospital da Marinha, na Agronômica, ele entrou. Eu o conhecia desde os meus quinze anos, quando estudava no Colégio Coração de Jesus. Era magro, de estatura mediana, o cabelo ralo sempre bem penteado, muito simpático e educado.

Todos os dias na saída do Colégio – depois, é claro, de pentear os cabelos, passar batom e saborear uma bala Pipper, rotina de todas as moças que tinham namorado encostado no muro, à espera – eu passava pela banca de revistas, onde ele trabalhava. Olhava muito e, quando o dinheiro permitia, até comprava alguma coisa, mas ele não se importava com isso e sempre puxava um dedo de prosa.

Entrou no ônibus encharcado, desgrenhado, tiritando de frio, os lábios roxos, o pouco cabelo escorrendo água. Chamava a atenção o fato de estar só de camiseta, os pêlos das axilas à mostra, daquelas que os velhinhos usam por baixo da roupa “pra proteger o peito da friaj”. Todos olhavam, uns descaradamente, outros de soslaio, o detalhe insuspeitado. Na mão, ele trazia uma gaiola, protegida da chuva e do vento por um blusão de lã. Pensei – Aí está: um homem e seu curió!

Ali, para quem quisesse ver, sem necessidade de uma única palavra, a imagem acabada do cuidado amoroso. Aquela cena o absolvia, de antemão, de toda e qualquer culpa pelo cárcere privado, fosse o tribunal de Deus ou dos homens.

 Naquele momento compreendi que existem coisas que transcendem o certo e o errado, independendo de onde estamos observando e do que trazemos no farnel, na trouxa, no balaio das nossas vivências e saberes. Fiquei enternecida e grata pela lição. Ainda fico. 

oOo
 

Bem-te-vi

Faz tempo que bem-te-vi,
Ai que vontade de bem-te-ver...

 

A foto do texto é de Fátima de Laguna
"curió do compadre Divino"

 

(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com