Creio que a figura humana que melhor caracteriza o
espírito da Ilha não é o pescador, tampouco a rendeira, mas o Homem
com o seu curió. Antigamente era mais comum vê-lo por aí, mas hoje
ainda é possível encontrá-lo, aos domingos, no depois da lida, a andar
pelas ruas, carregando uma gaiola.

O curioso é que o motivo da andança é levar o
bichinho a passear e apresentá-lo orgulhosamente aos outros do lugar,
gabar-se da sua plumagem e, sobretudo, dos seus trinados e solfejos.
Coisa de homens muito simples, quase ingênuos. Virou culto, de tão
arraigado no espírito ilhéu. E culto necessita de lugar especial, por
isso os amantes dos curiós inventaram um lugar, ao qual chamaram de “Curiódromo”.
O nome é feio, tem apelo comercial – lembra
autódromo, camelódromo e sambódromo –, mas não se iludam os desavisados,
nem os preservacionistas militantes; aquilo é um templo, um lugar de
adoração e de louvor à beleza do canto dos curiós e à relação dos homens
com os pássaros.
Ainda que pareça um despropósito, e é, aprisionar
em nome do amor, ainda mais um pássaro criado por Nosso Senhor para voar
e cumprir a sina de semeador, ainda que isso seja condenável do ponto de
vista de quem pensa e sente diferente, e eu me incluo entre esses, acho
que consegui, certa vez, entrar em conexão com a magia que une esses
homens simples e seus pássaros numa relação tão peculiar.
Era fim de outono, começo de inverno, o dia
amanheceu bonito, mas, no final da manhã, fechou de repente, como
resultado de uma frente fria vinda na garupa do Vento Sul. Eu me dirigia
ao centro da Cidade, de ônibus.
A chuva caiu. Chuva com vento é fogo-na-rôpa,
a gente não tem escapatória, não tem sombrinha, casaco e nem cabelo que
cumpram a sua função. Cada vivente que entrava no ônibus vinha
encharcado e reclamando. O ônibus apinhado, e o cobrador pedindo – Um
passinho à frente aí, fazendo o favor... (na época entrava-se pela
porta de trás, por isso “o passinho à frente”).
De repente, ali na altura do antigo Hospital da
Marinha, na Agronômica, ele entrou. Eu o conhecia desde os meus quinze
anos, quando estudava no Colégio Coração de Jesus. Era magro, de
estatura mediana, o cabelo ralo sempre bem penteado, muito simpático e
educado.
Todos os dias na saída do Colégio – depois, é
claro, de pentear os cabelos, passar batom e saborear uma bala Pipper,
rotina de todas as moças que tinham namorado encostado no muro, à espera
– eu passava pela banca de revistas, onde ele trabalhava. Olhava muito
e, quando o dinheiro permitia, até comprava alguma coisa, mas ele não se
importava com isso e sempre puxava um dedo de prosa.
Entrou no ônibus encharcado, desgrenhado, tiritando
de frio, os lábios roxos, o pouco cabelo escorrendo água. Chamava a
atenção o fato de estar só de camiseta, os pêlos das axilas à mostra,
daquelas que os velhinhos usam por baixo da roupa “pra proteger o
peito da friaj”. Todos olhavam, uns descaradamente, outros de
soslaio, o detalhe insuspeitado. Na mão, ele trazia uma gaiola,
protegida da chuva e do vento por um blusão de lã. Pensei – Aí está: um
homem e seu curió!
Ali, para quem quisesse ver, sem necessidade de uma
única palavra, a imagem acabada do cuidado amoroso. Aquela cena o
absolvia, de antemão, de toda e qualquer culpa pelo cárcere privado,
fosse o tribunal de Deus ou dos homens.
Naquele momento compreendi que existem coisas que
transcendem o certo e o errado, independendo de onde estamos observando
e do que trazemos no farnel, na trouxa, no balaio das nossas vivências e
saberes. Fiquei enternecida e grata pela lição. Ainda fico.
oOo
Bem-te-vi
Faz tempo que bem-te-vi,
Ai que vontade de bem-te-ver...
A foto do texto é de Fátima de Laguna
"curió do compadre Divino"
(11 de novembro/2006)
CooJornal
no 502