11/11/2006
Ano 10 - Número 502

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

1 X 0 pro Curió

(Por esta luz que me alumia)

 

Eu sei que vão dizer que isso já virou palhaçada, que só pode ser invencionice minha, porque é a segunda vez que eu conto uma história de curió acontecida dentro de ônibus, mas eu juro por esta luz que me alumia: é a mais pura verdade. Aconteceu aqui na Ilha, dentro do ônibus que faz a linha “Volta ao Morro Carvoeira, Saída Norte”.

Quando entrei, o ônibus estava praticamente vazio, parado no Terminal de Integração, o TICEN. Para fugir do Sol, sentei na poltrona do lado esquerdo, logo atrás daquele cercadinho que limita os assentos destinados às senhoras grávidas, aos idosos e deficientes físicos. Logo em seguida, o ônibus saiu.

Lá pela altura do Instituto Estadual de Educação, um homem entrou com uma gaiola na mão. Eu já me aprumei no banco. Esse, ao contraio daquele, era jovem e estava vestido direitinho, mas, a exemplo daquela outra, a gaiola também estava coberta, desta vez, por uma camiseta. Até aí tudo bem que, por aqui, isso é normal.

Havia muitos lugares desocupados, mas o indivíduo resolveu sentar no espaço reservado e se aboletou exatamente no banco em frente ao meu. Eu sorri, pensando: lá vem uma crônica prontinha, é só o trabalho de descrever. Pois não deu outra! O tal do homem instalou o curió com toda pompa e circunstância ao lado da janela e, espremido, sentou-se no assento que dá para o corredor, exatamente onde fica a catraca. 

Lá pelas tantas o ônibus começou a encher, que gente é que nem formiga, brota não se sabe de onde. O povo entrando - alunos com suas imensas mochilas, donas de casa com sacolas carregadas de legumes e hortaliças adquiridas no Direto do Campo, gente alta, gente baixa, gente magra e gente gorda. Poucos velhos, porque aquela já era a hora da madorna para quem almoça cedo, como eles.

Todo mundo que entrava olhava para a gaiola com ar de censura, e o homem nem aí... Eu pensei: alguém vai falar alguma coisa! Mas o ônibus seguia o seu trajeto e nada de reclamação. Eu, ouriçada, à espera do desfecho da crônica, o meu ponto quase chegando, decidida: eu passo do meu ponto, mas essa eu não perco.

Nem precisei ir tão longe. Ali, na altura da Praça Celso Ramos, uma mulher entrou, e já veio com cara de arrenegada, do tipo que foi receber o salário e viu que o dinheiro não dá pro mês, sabes como é? Na verdade até havia lugar vago na parte de trás do ônibus, porque muita gente saltou no ponto do Shopping, mas a dita parecia achar que aquilo era uma questão de justiça, de afirmação da superioridade da espécie humana sobre todas as criaturas. Lançou um olhar irônico em volta, como quem diz, “_ Vocês vão ver, seus tanso”, olhou para o tal do homem e disse cheia de autoridade: “_ L’cença?”.

O homem não respondeu, apenas levantou, ergueu a gaiola para mulher passar, sentou-se e, antes que ela pudesse comemorar a façanha, colocou a gaiola sobre o colo, ou melhor, sobre os colos, o dele e o dela.

Para não dar o braço a torcer, a tal mulher viajou até o bairro Trindade com o curió no colo. Pelo menos até a minha parada, que o que aconteceu depois eu não vi. 1 X 0 pro curió. Porque, mais do que isso, só se ele pudesse voar livremente.
 

oOo
 

Política de boa vizinhança

De manhã,
Quando abro minha janela, um passarinho canta:
_ Bem-te-viiiiiiiiii!
Agradecida, respondo bem alto:
Pra ti também!!!

(E penso: simpático, ele!)

  

A foto do texto é de Fátima de Laguna
"curió do compadre Divino"


(11 de novembro/2006)
CooJornal no 502


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com