|
Norma
Bruno
Chalés, sobrados,
casas de porta e janela
|
 |
De acordo com o velho contador de histórias, de
início aquele era um lugar muito modesto. Pouco mais de uma centena de
casas, distribuídas pelos becos e vielas que se formaram caoticamente ao
redor da ermida que marcou a sua fundação. Os limites da ocupação foram
estabelecidos pela conveniência das fontes naturais de água e a praia,
fonte natural de alimento.
A maioria das casas era simples, como a vida dos
seus moradores. Os artífices, pequenos proprietários e funcionários,
moravam em casas baixas, do tipo porta e janela, pois, segundo se conta,
mesmo no final do século XVIII os aldeões ainda não haviam se desterrado
do antigo jeito de construir suas moradas “com portas muito
pequeninas e umas janelinhas”.
Os senhores também moravam modestamente, mas, a
partir dessa época, encontram-se registros de dois “sobrados acachapados”,
o que não deve ter mudado sobremaneira a paisagem aldeã, visto que
acachapado significa abaixado, encolhido, ou seja.
Antes disso, a praça principal era apenas um
descampado que se abria desde a praia, um largo, como se dizia naquele
tempo. Ali ficava a capelinha, a ermida, que marcava o início da póvoa.
De um lado via-se a casa do Governo, que, apesar da importância
político-administrativa, era despossuída de relevância arquitetônica,
pois é descrita como uma casa pequena, de uns doze palmos de altura. No
outro lado, cinco pequenas casas serviam de sede ao Legislativo e à
cadeia.
A partir desse núcleo, as casas iam rareando, um
alinhamento aqui, outro ali, espraiando-se pela paisagem, desviando do
charco que resultava das chuvas, os terrenos baldios e os pastos. No
mais, era o mar – o miramar – cenário natural de toda aquela gente,
desde sempre. O poder d’El Rei era marcado pela presença ameaçadora do
pelourinho. Assim foi até a chegada dos ilhéus.
Vieram do Arquipélago dos Açores, tangidos pela
fome e pela miséria resultantes do excesso de gente nas ilhas, mas,
sobretudo, pelo sonho de uma vida nova, que, mais que a fome e a dor, o
que tira a gente do lugar é a esperança. Aos migrantes oferecia-se
transporte gratuito em todo navio que ‘tocasse nos Açores, e viesse
para o Brasil’, “uma ajuda de custo para o casal e seus
descendentes, além de ferramentas, armas, animais e farinha”.
Para os homens, acenava-se com a isenção do serviço
militar, já que povoar a terra também era uma maneira gloriosa – e às
vezes mais eficaz – de servir ao Rei. Mais que tudo, para aquelas
gentes, atraente era a promessa de doação de terra para o cultivo.
Primeiro vieram os das ilhas de São Miguel, da
Graciosa e de São Jorge. Depois, chegaram os do Pico, da Ilha Terceira,
de Santa Maria, do Faial e das Flores. Dizem que só não veio gente da
Ilha do Corvo e que os chegados foram-se localizando nos antigos
arruamentos.
Eram gentes de tez clara, mulheres faceiras,
bonitas – as Marias, Carolinas, as do Carmo, as da Graça e as das Dores,
as Teresas, Alziras e Aurélias – muito limpas e desembaraçadas. Não se
escondiam dos homens, mas também não saíam sozinhas, que isso já não era
de arriscar.
Segundo alguns relatos, os homens de nome Manoel,
Antônio, Joaquim, João, Pedro, Ovídio, Sebastião, Francisco e de todos
os santos tinham pouco domínio sobre as lides do campo, mas eram
excelentes marinheiros. Há quem diga o contrário.
De acordo com os contadores de histórias, os
açorianos aumentaram a população local em aproximadamente 4.929 almas,
chegadas entre os anos da graça de 1748 e 1756; outros falam em 6000
almas. Vinham com a missão de ocupar, procriar e povoar as terras firmes
compreendidas entre “o rio de São Francisco do Sul até o cerro de São
Miguel e sertão correspondente”, mas acabaram – a maioria – por
fincar morada na Ilha. Tamanha quantidade de gente haveria de mudar a
vida pacata do lugar, e assim foi.
O largo da praça virou mercado de gêneros e de
peixe, vendido ao freguês diretamente pelos pescadores, “sob pena de
multa e confisco”. O tempo passou. A aldeia aburguesou-se.
Construíram-se mais casas, mais ruas e as primeiras chácaras. As casas
assobradaram-se, abrindo espaço para o comércio de gêneros no andar
térreo. Em cima ficava a morada da família. Algumas possuíam um
avarandado e grandes salas de visita que se abriam para os saraus de
prosa, canto, poesia e dança.
Os brancos imitavam os costumes europeus;
vestiam-se os homens à moda inglesa as mulheres à francesa. Segundo o
contador de histórias, importava-se cerveja, manteiga, bacalhau e
azeite. “Almoçava-se às 10 horas, jantava-se as quatro”. Depois
de um chá, servido pelas nove, as famílias recolhiam-se.
Se “o dia era dos brancos, a noite era dos
pretos”. Depois da faina, eles iam vadiar, pelas ruas e tabernas,
sem a interferência dos senhores e seus estranhos costumes. Esses homens
trabalhavam na estiva dos barcos, nos armazéns, mas principalmente nas
lidas domésticas. “Cedo iam aos magotes aos pontos onde abicavam as
canoas que traziam o peixe”.
Encarregavam-se, também, de ir às fontes buscar
água e de dar fim aos excrementos e nojeiras dos seus senhores,
despejando-os nas praias, bem como no rio da Bulha,
“que recolhia as águas que desciam das vertentes do
(...) morro do Antão”.
As estradas serviam antes às andanças das pessoas
que ao transporte dos gêneros, pois desde aquela época já se sabe que o
mar é meio mais rápido e mais barato. Mesmo assim, ao longo do tempo as
ruas foram melhorando e, apesar de muito estreitas, eram alumiadas com
lampiões de azeite de peixe, razão pela qual as casas de esquina tinham
uma pedra furada presa numa determinada altura, a fim de pendurá-los. O
contador de histórias ressalta que não se acendiam os lampiões
“nas noites de luar, por ser desnecessário, e
nas de vento por impossível”.
Nesse tempo, nos portais das casas havia uma argola
destinada a prender os cavalos do médico, do padeiro ou de alguma
visita. Pode-se presumir que, em casa de gente devota e temente a Deus,
como eram e são os ilhéus, a argola destinava-se, igualmente, a prender
o cavalo do padre, chamado às pressas para ministrar sacramento, ou
convidado solenemente para a janta.
Pelas ruas os mascates ofereciam cortes de fazenda,
vidros de extrato, aviamentos e mercadoria barata. Toda a prosperidade
da aldeia advinha do seu porto; o que acabou por desenvolver um poderoso
núcleo de transporte marítimo, cujos armadores constituíram uma espécie
de nobreza local, rivalizando em importância com os militares e altos
funcionários do governo na influência dos destinos do lugar.
Estes foram os “começos” da aldeia, a Vila de Nossa
Senhora do Desterro, esta abençoada Ilha de Santa Catarina.
* Releitura
absolutamente livre e nostálgica dos escritos de Oswaldo Rodrigues, o
Cabral, um velho contador das histórias da aldeia. (Nossa Senhora do
Desterro, livro 1)
Postscriptum
– Do que resistiu à ação do tempo, pouca coisa resistiu à ignorância dos
homens. Quase tudo foi destruído nas décadas de 70 e 80, sob a filosofia
do progresso a qualquer preço. Assim, tombaram ao chão o Miramar, a Ilha
do Carvão, a Casa do governador Gustavo Richard, e até edificações mais
recentes como o Hotel Laporta, o..., a... Além das incontáveis casas de
porta e janela das pessoas anônimas.
Recentemente, foram
derrubadas as ruínas da Ponta do Coral. Só falta a Velha Ponte. Essa
estão esperando que caia sozinha, pra não terem que assumir a
responsabilidade. Sobraram aqui e ali, umas ruínas, umas meias-paredes e
a beleza – e a mística de alguns portais...

(19 de novembro/2006)
CooJornal
no 503