25/11/2006
Ano 10 - Número 504

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

Breve Discurso sobre Palavras e Silêncios

Há algum tempo venho ouvindo falar sobre o silêncio. Da importância de ouvi-lo, buscar nele as respostas e utilizá-lo como exercício para a evolução pessoal. Confesso publicamente a minha dificuldade em fazê-lo, porque tenho com as palavras uma relação de amorosa cumplicidade, de segredos compartilhados e mútuos consentimentos. Eu penso, elas dizem. Eu sinto, elas revelam.

Palavras pensadas, palavras sentidas, palavras ditas e não-ditas. Só não me entendo bem com as meias-palavras. Elas me fascinam porque têm espírito. Podem ser fonte de amorosidade ou ferir e impingir a dor. Podem edificar, agregar, desagregar, degredar e degradar o outro, pois as palavras são feiticeiras, têm poderes mágicos, e pelo som, produzem maldição ou encantamento. Podem transfigurar sapos e borralheiras, revelando–lhes a virtuosidade, ou embruxar, matar por inanição, desnutrindo emocionalmente uma pessoa. Elas são a ponte para o intangível, o transcendente, o invisível.  Ao proferi–las, eu revelo ao outro o que lhe é desconhecido em mim e o convido a atravessar o portal da minha identidade. As palavras tornam-se, nesse momento, uma oferenda de mistérios revelados.

A palavra escrita tem um poder ainda maior, pois se diferencia da palavra dita, vulnerável ao vento, pelo seu caráter impermanente. Quem escreve deixa rastros, pistas, vestígios incriminatórios. A escrita repete o que foi dito toda vez que é lida. O seu conteúdo pode ser de novo saboreado, degustado, e as emoções revividas. Adquire um caráter documental, torna–se confissão de próprio punho, declaração de mea-culpa. Pode-se negar o que foi dito, mas não o que foi escrito, pois a palavra escrita carrega consigo a identidade do seu autor. O papel fica inexoravelmente impregnado pela caligrafia e pelas impressões digitais, tornando fácil a comprovação da autoria.  Por certo, deve-se a isso o fascínio que as cartas de amor exercem sobre os amantes. É que, além de emoções e segredos, elas revelam a identidade do ser amado, elas trazem consigo um pedaço do outro eu.

À semelhança da fotografia, a escrita é o registro de uma realidade que é verdadeira num determinado fragmento do Tempo, mas, não necessariamente num outro. Isso expõe o leitor ao risco de dar validade ao que já passou, ao que, exposto a interferências e ruídos, pode ter mudado. Escrever aprisiona o significado e um momento no Tempo, mas não impede o fluir do Tempo, nem a mudança do significado.

Talvez seja essa a razão de tantos silêncios. Calamos porque conhecemos o poder mágico e a consistência evanescente das palavras. Tememos dizer demais, revelar demais, cativar o outro e correr o risco da responsabilização. Tememos com igual intensidade, a palavra que vem do outro. Tememos interpretá-la erroneamente e ouvir o que queremos ou o que não queremos. Então, preocupados com a manipulação e o poder do outro sobre nós, des-confiamos do que ouvimos. Com a mesma intensidade, desejamos e tememos o encantamento.

Assim, escrevemos tratados, fazemos discursos, usando milhares de palavras e conceitos com a intenção de disfarçar, de justificar o que sentimos, pensamos e sonhamos, diminuindo-lhe o impacto. Mas, ao contrário do que supõem os desavisados, a missão da palavra não é explicar, a missão da palavra é revelar, desvendar mistérios. Disso bem sabem os poetas de cujas palavras transbordam, despudoradamente, as emoções.

Silenciar é uma atitude prudente, pois evita o risco e a responsabilidade. Confesso que me sinto confusa diante do silêncio. Não do meu, que esse está repleto de poesia e música. Refiro-me ao silêncio do outro, pois ao calar, ele me autoriza a preenchê-lo com os sons dos meus medos ou dos meus sonhos e desejos.

Sim, sei que há momentos em que o sentimento é maior que o verbo e o silêncio mais eloqüente. É quando a identificação e a sintonia produzem o fenômeno do “fluir junto”, a Dança dos Espíritos, onde as palavras tornam-se dispensáveis porque insuficientes.  Neste caso, para dizer, basta o olhar. Mas, para chegar até esse ponto, eu não conheço nada melhor do que as palavras.
 


(25 de novembro/2006)
CooJornal no 504


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com