Há algum tempo venho ouvindo falar sobre o silêncio. Da
importância de ouvi-lo, buscar nele as respostas e utilizá-lo como
exercício para a evolução pessoal. Confesso publicamente a minha
dificuldade em fazê-lo, porque tenho com as palavras uma relação de
amorosa cumplicidade, de segredos compartilhados e mútuos
consentimentos. Eu penso, elas dizem. Eu sinto, elas revelam.
Palavras pensadas, palavras sentidas,
palavras ditas e não-ditas. Só não me entendo bem com as meias-palavras.
Elas me fascinam porque têm espírito. Podem ser fonte de amorosidade ou
ferir e impingir a dor. Podem edificar, agregar, desagregar, degredar e
degradar o outro, pois as palavras são feiticeiras, têm poderes mágicos,
e pelo som, produzem maldição ou encantamento. Podem transfigurar sapos
e borralheiras, revelando–lhes a virtuosidade, ou embruxar, matar por
inanição, desnutrindo emocionalmente uma pessoa. Elas são a ponte para o
intangível, o transcendente, o invisível. Ao proferi–las, eu revelo ao
outro o que lhe é desconhecido em mim e o convido a atravessar o portal
da minha identidade. As palavras tornam-se, nesse momento, uma oferenda
de mistérios revelados.
A palavra escrita tem
um poder ainda maior, pois se diferencia da palavra dita, vulnerável ao
vento, pelo seu caráter impermanente. Quem escreve deixa rastros,
pistas, vestígios incriminatórios. A escrita repete o que foi dito toda
vez que é lida. O seu conteúdo pode ser de novo saboreado, degustado, e
as emoções revividas. Adquire um caráter documental, torna–se confissão
de próprio punho, declaração de mea-culpa. Pode-se negar o que foi dito,
mas não o que foi escrito, pois a palavra escrita carrega consigo a
identidade do seu autor. O papel fica inexoravelmente impregnado pela
caligrafia e pelas impressões digitais, tornando fácil a comprovação da
autoria. Por certo, deve-se a isso o fascínio que as cartas de amor
exercem sobre os amantes. É que, além de emoções e segredos, elas
revelam a identidade do ser amado, elas trazem consigo um pedaço do
outro eu.
À semelhança da fotografia, a escrita
é o registro de uma realidade que é verdadeira num determinado
fragmento do Tempo, mas, não necessariamente num outro. Isso expõe o
leitor ao risco de dar validade ao que já passou, ao que, exposto a
interferências e ruídos, pode ter mudado. Escrever aprisiona o
significado e um momento no Tempo, mas não impede o fluir do Tempo, nem
a mudança do significado.
Talvez seja essa a razão de tantos
silêncios. Calamos porque conhecemos o poder mágico e a consistência
evanescente das palavras. Tememos dizer demais, revelar demais, cativar
o outro e correr o risco da responsabilização. Tememos com igual
intensidade, a palavra que vem do outro. Tememos interpretá-la
erroneamente e ouvir o que queremos ou o que não queremos. Então,
preocupados com a manipulação e o poder do outro sobre nós,
des-confiamos do que ouvimos. Com a mesma intensidade, desejamos e
tememos o encantamento.
Assim, escrevemos tratados, fazemos
discursos, usando milhares de palavras e conceitos com a intenção de
disfarçar, de justificar o que sentimos, pensamos e sonhamos,
diminuindo-lhe o impacto. Mas, ao contrário do que supõem os
desavisados, a missão da palavra não é explicar, a missão da palavra é
revelar, desvendar mistérios. Disso bem sabem os poetas de cujas
palavras transbordam, despudoradamente, as emoções.
Silenciar é uma atitude prudente, pois
evita o risco e a responsabilidade. Confesso que me sinto confusa diante
do silêncio. Não do meu, que esse está repleto de poesia e música.
Refiro-me ao silêncio do outro, pois ao calar, ele me autoriza a
preenchê-lo com os sons dos meus medos ou dos meus sonhos e desejos.
Sim, sei que há
momentos em que o sentimento é maior que o verbo e o silêncio mais
eloqüente. É quando a identificação e a sintonia produzem o fenômeno do
“fluir junto”, a Dança dos Espíritos, onde as palavras tornam-se
dispensáveis porque insuficientes. Neste caso, para dizer, basta o
olhar. Mas, para chegar até esse ponto, eu não conheço nada melhor do
que as palavras.
(25 de novembro/2006)
CooJornal
no 504