Quando ela chega ao trabalho eles já estão lá, à espera, principalmente
elas, elas e os filhos pequenos. Vêm com suas pequenas queixas, as
mesmas de sempre.
Demoram-se pouco nos assuntos introdutórios
– o tempo, o preço das coisas, o aumento da passagem, o salário de fome
–, têm pressa. Logo vão ao assunto que realmente interessa: as suas
dores e mazelas. Alguém pergunta: – O que é que houve com o menino?
Tá doente? É o suficiente para mãe desfiar o rosário de sintomas do
coitado do menino, judiação.
Logo uma mulher faz conexão com os seus
próprios sintomas e passa a falar do seu sofrimento. – Os médico não
descobre o que é. Diz, entre preocupada e orgulhosa, ao perceber
todos os olhares se voltando para ela, penalizados. No outro extremo da
fila, um homem velho percebendo o silêncio repentino, pergunta o que
está acontecendo. Uma mocinha, demasiado jovem para estar tão grávida,
responde baixinho: – Tá desenganada!
Uma mulher bonita, apesar da idade, se
abana em agonia, valendo-se de um folheto de campanha para deputado
improvisado de leque, mal disfarçando a razão da consulta: – Abafado
aqui, né? Ninguém discordaria, não fosse junho, a três dias do
início do inverno.
A súbita chegada do motorista de ônibus
intermunicipal acometido de uma grave crise renal em pleno trajeto da
linha justifica a transgressão da ordem na fila e acaba por deflagrar
uma acalorada discussão: – Pedra nos rim é pior que dor de
parto, diz, inadvertidamente, um homem de cabelo branco aparentando
experiência. Os outros homens concordam em uníssono.
Uma mulher gorda com fama de boa parideira,
desafiada em seus brios, lança a pergunta ao grupo masculino: – Vocês
já tivero pedra nos rim? Um diz que sim, outro diz que não,
mas que o pai já teve: – Diz o pai que é de subí pelas parede...,
conta o homem apropriando-se do argumento paterno. A mulher
arremata: – E filho, vocês já pariro? O riso delas é exultante, o
deles constrangido.
O
barulho foi tanto que a atendente mandou todo mundo calar a boca. Por um
breve instante os mais velhos sentiram uma repentina saudade daquelas
enfermeiras de antanho cuja fotografia enfeitava os corredores dos
antigos hospitais pedindo silêncio com simpatia e elegância.
Por ali passa gente de todo tipo, com dores
e sofreres que não constam nos compêndios médicos; não com aqueles
nomes. As doenças iam desde os casos simples de friera e congestã,
sensação de peso nas perna, bicho berne, dor de flato, dor nas junta,
terçol, erisipela, cobrero e unhero, surto de piolho, vermes e amarelão,
sinusite, cistite, conjuntivite e bursite, carne esponjosa, veia
entupida, resfriados e gripes de toda a qualidade, malijeito, hérni,
íngua, pobrema no fígado, corrimento, crise de ciático, sarna, alergias
e outras coceiras, crises de bronquite e de asma, casos graves de bafo
ou chulé que comprometiam desde a auto-estima até os relacionamentos,
quemação no stôm’o, dores de cabeça das mais diversas causas,
mulher com ataque porque o marido deu carona para a vizinha, bexiga
caída e urina solta, sensação de empanturrado, dor de croca e nó nas
tripa, mulher com calorão, velho com triza e homem negando fogo, neném
com sapinho, furúnculo, doenças de rua – a lista toda –, até as coisas
graves como mal di parqui, criança afogada com bala Soft, queda da
matriz, picada de cobra, dor de corno, parto encruado, homem com dor nos
bago, menino acidentado com bomba de São João, moça bonita queimada de
explosão, criança atropelada, gente de cabeça rachada em briga de
vizinho ou de amantes, gente engasgada com espinha de peixe e afogada
com água de rio e de mar, um caso grave de fimose estrangulada em plena
lua-de-mel, gente enfartando, mulher doente com as regra que subiu pra
cabeça – e não adianta o doutor dizer que isso não existe; qualquer
mulher sabe o quanto é perigoso -, menino abilolado que não aprende na
escola, criança acabada de nascer, gente acabada de morrer. No mais, um
monte de gente sem esperança de ser feliz com a vida que leva.
Mas também tem histórias felizes como a da
mulher de cinqüenta e oito anos que veio atrás de uma receita de
hormônio porque acabou de ter o primeiro orgasmo e agora não sabe mais
viver sem, e histórias engraçadas como a daquele homem que veio pedir um
atestado frio.
O doutor tinha fama de ser rigoroso para
dar atestado. Orgulhava-se de não dar moleza para gente esperta que
emendava feriado por conta própria, ou que ia para o Paraguai comprar
coisa falsificada, a fim de reforçar o orçamento, e depois dizia lá no
serviço que ficou doente. Também não aliviava para estudante com
preguiça de fazer educação física ou trabalhador enfarado com o ofício
desestimulante. Isso até aquele dia.
O homem, um sujeito pardo, alto e forte, os
bíceps mal cabendo dentro da camisa de mangas curtas, sentou-se,
silencioso. O doutor perguntou: – E então? Qual o seu problema?
Ele, num tom muito tranqüilo, respondeu: – O prolema é que eu tô
cumprindo pena na Penitenciária, e saí com o induto de Natal, mas não
voltei até hoje. (Isso era 23 de janeiro). O doutor
perguntou: – E qual foi o seu crime? E ele: – Eu matei um
homem. E o doutor: – De quantos dias o “senhor” precisa?
Mas nenhuma história se comparava ao que
ela presenciou uma vez, há muitos anos. O tema era o de sempre. A
disputa, dessa vez, aconteceu entre duas mulheres que aguardavam a hora
da consulta e, na conversa, descobriram que tinham o mesmo diagnóstico,
o que inviabilizava a supremacia de uma doença sobre a outra.
De qualquer forma, não desistiram: uma
começou a relatar o seu padecimento, contando em detalhes a doença,
desde os primeiros sintomas. Quando acabou, a outra disse: – O meu
caso é pior! E passou a contar as suas próprias agruras,
esclarecendo que tinha todos os sintomas mencionados pela outra,
acrescidos de uns quatro ou cinco efeitos colaterais por causo dos
remédio.
Sem se deixar intimidar, a primeira disse
que os remédio ela até que podia tomá, o problema era uma
dor que começava na cabeça, depois descia pros pé e a obrigava a passar
o dia deitada, impedida que ficava de fazê o selviço da casa e
de cuidá dos menino, que tinham que passar o dia todo na casa da
avó, vindo para casa só na hora de dormir, já de banho
tomado e jantados.
A outra disse: – Mas o meu caso é pior!
Ela, além de não podê tomá os remédio, também tinha
essa dor, só que a dela, antes de descê pros pé, parava nos
grugumilho. A outra respondeu: – Mas o meu caso é muito pior!
E assim seguiram disputando, sintoma a
sintoma o título de caso clínico de maior gravidade, dividindo a atenção
e a simpatia da platéia, a ponto de uma mulher ter sido chamada para a
consulta e oferecer a vez à outra que chegou depois, só para não perder
nenhum lance.
Aquilo parecia não ter mais fim, apesar de
as duas estarem quase esgotando o repertório do Código Internacional de
Doenças. Na sala, as pessoas já davam a disputa por empatada, quando um
velho, incomodado com aquele matraquear de mulher que não tem o que
fazer – Ah, um cocho de rôpa pra lavá..., disse: – A
minha mulhé morreu disso!
Foi um santo remédio. Naquele dia,
milagrosamente, as duas saíram dali curadas.
Moral da história:
o que dá status ao pobre é doença
grave.
(16 de dezembro/2006)
CooJornal
no 507