Fora morar ali um ano após o casamento, grávida do primeiro filho. A
pequena cidade era famosa por suas enchentes ao ponto de merecer uma
marchinha de carnaval, uma homenagem prestada por algum gozador da
Capital. A bem da verdade, mesmo que o índice pluviométrico fosse pouco
significativo, a localização entre o rio e o mar transformava aquela
cidade numa espécie de Veneza tupiniquim, ainda que desprovida daquele
charme e romantismo e acrescido o ônus de ser uma cidade do sul do
mundo, com todas as suas mazelas.
Com base no relato dos habitantes locais e atendendo à expressa
recomendação da família e dos amigos, ela procurou um lugar alto
para morar; e o lugar mais alto era o primeiro prédio em construção na
cidade, bem ao lado da praça principal.
Principal é maneira de dizer. Dizia-se principal porque é assim que se
usa dizer nas cidades pequenas, nem tanto para diferenciar uma entre as
muitas praças, e mais para conferir-lhe importância, já que aquela era a
única praça da cidade. O título era uma expressão ingênua de ostentação
e orgulho, quase soberba, algo assim como um diploma de filho pregado na
parede da sala, a emprestar importância a toda à família de reduzidas
letras.
Pois bem, a menina nasceu. Vieram outros dois filhos, meninos, com
diferença de três e sete anos entre um e outro. Enquanto o tempo cumpria
a sua sina ocorreram chuvas de todos os tipos, chuva passageira, chuva
de verão, chuva fina, abençoada, daquela que faz a alegria das flores,
dos grãos, verduras e hortaliças e também daquela que parece que chega e
não vai mais embora e começa a brotar na porta da geladeira, no azulejo
da cozinha e do banheiro, e a gente não pode lavar as roupas das
crianças, que ficam presas dentro de casa e a casa vira um
deus-nos-acuda. Teve também chuva do tipo tempestade,
raio–corisco–trovão, chuva de noite e chuva de dia, e nada de enchente.
Para falar a verdade, teve enchente sim, em tudo quanto é cidade do
Estado, e aí foi aquele ritual de prefeito aparecer na televisão
decretando estado de calamidade pública e de entrevista de flagelado com
o cabelo molhado, olhar perdido e voz embargada – Tudo o que a
gente levou a vida inteira pra conseguir, a chuva destruiu em poucos
minutos, e agora, o que é que vai ser da gente?
Algumas foram destaques no Jornal Nacional, tu deves ter visto, e até
mereceram ajuda humanitária do País inteiro. Aquilo sim é que era
enchente! E na tal cidade, nada. Até nisso aquela cidade era acanhada.
Culpa do novo prefeito que inventou de dragar o rio e fazer obra no
canal que passa bem no meio da tal praça. Lá se foi o título.
Com a chegada do segundo filho, e referendada pelas mais recentes
pesquisas que apontavam que enchente era coisa do passado, ela mudou-se
com a família para uma casa com quintal; criança precisa de espaço para
tomar sol, ganhar piscina de plástico, espalhar brinquedo e andar de
velocípede, essas coisas que dão graça à infância e fazem a alegria dos
avós.
E
assim a vida seguiu mais ou menos tranqüila, não fosse um sobressalto
aqui, outro ali, como é para todo mundo. As crianças cresceram e foram
estudar na Capital, pois ela exigia que os filhos tivessem uma boa
educação.
No começo até que era tranqüilo, depois começou a complicar; o trânsito
piorou, começaram os engarrafamentos, as crianças crescendo, os horários
já não coincidiam. A solução era mudar para a Capital. Pois bem, em
plena preparação da mudança e com doze anos de atraso, a enchente tão
esperada chegou. Veio num fim de tarde, sem avisar, para a despedida. As
crianças, benditas sejam a inocência e a ignorância, festejavam. Foi
difícil segurá-las em casa, pois queriam, a todo custo, nadar na
enxurrada com os amiguinhos. À noite, ela e os filhos na janela
acompanhavam o movimento. As pessoas passavam, quedavam-se um pouco,
apenas o suficiente para relatar um ou outro drama – A água tá quase
entrando na casa de fulano, – Beltrano tá com água na cintura,
– Sicrano perdeu tudo, – Um homem tá desaparecido no Jardim
Shangrilá.
Toda cidade que se preza tem um loteamento cheio de gente pobre chamado
Jardim Shangrilá, Jardim Novo Horizonte, Jardim Miami, ou qualquer outro
nome que faça referência a um superlativo ou a um lugar paradisíaco.
Desconfio que o nome pomposo deva servir como uma espécie de amuleto
contra a vida difícil.
É
igual a nome de criança. Foi-se o tempo em que filho de pobre tinha nome
simples, fácil de falar e de escrever. Hoje, se a gente encontra alguém
com menos de 30 anos que se chame João, Pedro, Benedita ou Maria, pode
ter certeza que é filho de intelectual. Filho de pobre se chama
Wóchinthonn, Wélinthonn, Jenniffer, Pâmella ou
Deividi, escrito assim mesmo, com essa grafia over. Quanto mais éles,
enes e teagás melhor. Letra i só se o escrivão estiver num
péssimo dia, se não, dá-lhe ipsilone. Pode-se ver a expressão orgulhosa
da mãe quando a atendente do posto de saúde pede para soletrar o nome da
criança.
Alguém trouxe a notícia de que, em algum lugar, uma mulher entrou em
trabalho de parto. É impressionante como mulher tem mania de entrar em
trabalho de parto nas horas mais inconvenientes. É só ouvir falar em
calamidade pública que a mulherada desanda a parir filho no meio da rua,
dentro de ônibus e carro de polícia. Mas não me iludo, sei que não é
para piorar o que já está difícil. Estas mulheres são mensageiras de
Deus, a dizer que toda dor passará e que a vida é maior do que tudo o
mais.
Um amigo ofereceu ajuda, sabia que ela estava só com as crianças, era
perigoso permanecer em casa. As horas passando e o rio tomando de volta
o seu espaço usurpado pelos homens. O amigo passava por lá entre um
salvamento e outro, e ela o acalmava dizendo que tudo estava bem, que
não havia motivo de preocupação. Prometeu que telefonaria se fosse
necessário.
Vinte minutos depois a água chegou ao portão, entrou no quintal, e do
quintal para a soleira da porta foi um estalar de dedos. Assustada,
correu ao telefone, ele não estava, deixou recado. Apressou-se a acordar
as crianças e preparar uma muda de roupas, um pão fatiado, um litro de
leite, um pouco de carne moída congelada com molho – sempre dá para
cozinhar um macarrão ou comer com pão.
Prevenida, colocou os tapetes em cima da mesa, desligou os aparelhos das
tomadas e trancou o cachorrinho no banheiro. Ainda faltava pegar as suas
próprias coisas. Sabe como é, mãe tem que pensar primeiro nos filhos.
Separou uma calcinha, uma roupa para dormir, uma troca de roupa, aquela
chegaria molhada, pegou uma roupa confortável - a calça, a blusa e as
ombreiras -, e o creme hidratante, colocou tudo numa sacola de
supermercado e foi para a janela aguardar o socorro.
O
amigo, Deus o abençoe, colocou o menino pequeno na garupa, segurou a
menina numa mão e o menino do meio na outra. Ela foi ao lado segurando
as sacolas com as provisões. Para as crianças tudo era festa, mas os
adultos tinham no rosto a expressão do medo e do esforço para vencer a
correnteza e as picadas de formiga. Foi Deus quem mandou aquele homem,
pois, sozinha, ela provavelmente perderia os filhos para a correnteza.
Finalmente conseguiram chegar até a casa, onde a mulher dele os esperava
com uma xícara de café com leite quente. Foi o melhor café com leite da
sua vida! O amigo saiu em seguida para ajudar outras pessoas. Olhando do
alto ela pôde ver a extensão da tragédia.
As crianças, depois de um banho quente e muita relutância, dormiram
animadas pelo clima de acampamento que se instalou na sala de visitas.
Ela, ao invés do pijama, vestiu a roupa, pronta para qualquer
emergência, passou o creme no rosto e dormiu de cansaço.
No dia seguinte a narrativa era aquela de sempre: a cidade estava
destruída e os mais pobres foram os mais atingidos. O tal homem
desaparecido fora encontrado ajudando um outro ainda mais desgraçado do
que ele; a mulher dera à luz uma menina forte e saudável, à qual, como
era de se esperar, deu-se o nome de Vitória – mais uma fêmea para botar
criança no mundo na hora exata em que a gente precisar de esperança.
Na casa dela, a não ser pelos sapatos de salto alto boiando pela casa e
pelo cachorrinho preso no banheiro,
tudo estava bem. Ela aprendeu com os seus experientes amigos que
numa enchente o primeiro lugar da casa a ser inundado é o
banheiro, razão pela qual em hipótese
alguma se deve prender um animal nesse local. O dela só não se afogou
porque teve a brilhante idéia de subir no tampo do vaso sanitário. Como
conseguiu não se sabe. Cachorro esperto aquele!
O
dia amanheceu ensolarado, as águas baixaram e a cidade estava que era só
barro e lixo por toda parte. Enquanto voltava para casa com as crianças,
ela foi observando o ruidoso balé de mulheres envolvidas com baldes e
vassouras, uma espécie de mercado persa feito de sofás, roupas e
colchões colocados nas calçadas, expondo a intimidade das pessoas
tragicamente niveladas pelas águas. Ao chegar em casa e passado o
impacto da visão desoladora, seria a sua vez de prender os cabelos,
passar um batonzinho, pegar a vassoura e integrar-se à dança. Logo tudo
ficaria bem de novo.
E
ficou mesmo. Dias depois, ela narrava, grave, a tragédia para uma amiga,
quando esta soltou uma sonora gargalhada. – O que é que foi? –
perguntou ela sem entender. A amiga respondeu: – Eu não acredito! O
mundo debaixo d’água e ela preocupada com as ombreiras e com o
hidratante. Ela, sorrindo, disse prontamente: – Ah, minha filha,
vai que eu sou entrevistada? Já pensou, eu numa enchente, com a
pele desidratada? De jeito nenhum. – E o batom? –
perguntou a outra. – Batom é básico, faz parte, não conta. E
desataram as duas a rir.
Eu, particularmente, admiro as pessoas que nos piores momentos se mantêm
conectadas com a Luz e têm a capacidade de rir de si mesmas, pois acho
que isso ajuda a configurar os problemas no seu exato tamanho. Eu rio
até hoje, quando lembro.