03/02/2007
Ano 10 - Número 514

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 
Fantasias sexuais de uma senhora
muito distinta

(“Só não me venhas de borzeguins ao leito”) 


Dirigindo pela cidade ela passava diariamente pela vitrine de uma sex-shop. A loja fica num cruzamento movimentado onde existe uma sinaleira. Normalmente as pessoas transitam por ali distraídas entre preocupações e contas a pagar, mas quando o sinal fecha, pode-se ver que todos os olhares se voltam imediatamente para a vitrine. Ela dizia-se impressionada em ver até onde podia chegar a criatividade humana.

A vitrine tinha objetos, acessórios e fantasias para todos os gostos. Desde as presumíveis fantasias de colegial, odalisca e policial, a umas coisas que ela não sabia categorizar, como aquele traje muito esquisito feito de umas tiras de couro preto cheias de tachas metálicas. Parece que a intenção foi criar uma fantasia de macho, mas o resultado final foi um desastre até porque, para usar aquilo, era preciso um certo talento para a maricagem.

Havia, ainda, um sem-fim de retalhos de pano adornados de obviedades, como plumas e pele de oncinha, e uma manequim vestida de empregada – saia curtíssima preta, avental branco e touca de babadinho –, faltando só o espanador, mas não era preciso ser muito inteligente para imaginar que o patrão não permitiria que a moça ficasse de mãos abanando por muito tempo. Ela se perguntava: – Que mulher teria a fantasia de ser doméstica, meu Deus? Só mesmo um homem para ter uma fantasia tão estapafúrdia!

É claro que ela, uma mulher direita, mãe de família, nunca tinha entrado numa sex-shop; mas já tinha visto muita coisa nas revistas, que foi-se o tempo em que revista feminina se destinava a ensinar corte e costura, bordado e a arte de fritar um ovo com maestria. Isso é coisa daquele tempo em que as mães ensinavam para as filhas que “marido a gente agarra é pelo estômago”.

As moças agora querem é descobrir onde fica esse raio de ponto G, pois desde que as prendas domésticas caíram em desuso - hoje tem máquina que faz tudo – a coisa tá preta e, para arranjar marido, o jeito agora é apelar para a ignorância. A saída é tratar de aprender os segredos das mulhé-da-vida, que isso nunca sai de moda.

Ela achava tudo tão grotesco, tão feio e de um design tão desestimulante, que duvidava que um homem pudesse ficar animado com aquelas roupas, objetos e fantasias. Ela sentia vontade de rir.

Fantasia sexual é um negócio esquisito; cada um tem a sua, e ela também, já que era filha de Deus. Sentia uma fortíssima atração por canetas, gravatas, bengalas, saxofones, charutos e fardas, de preferência daquelas do Exército, de tom verde-ditadura. Também achava lindo quando o homem puxava de uma perna.

Temperar a vida amorosa é muito bom; brincar de casinha, de comidinha e de médico, mas para ela, em matéria de afrodisíaco, nada se comparava ao bom humor, à dança e à vida intelectual e emocional ativas. Sabia, no entanto, que relacionamento humano é um tema delicado e que a gente tem que ceder aqui e ali se quiser ser feliz; que tem o gosto da gente, mas também tem o do outro, o que sempre envolve algum risco de desacerto.

Também sabia que “quem não arrisca, não petisca”, por isso, em nome da política de boa vizinhança, resolveu flexibilizar algumas posições, quer dizer, algumas coisas, e aprender a transigir. Estava predisposta a abrir um espaço de negociações, mas “Só não me venhas de borzeguins ao leito!”.

Que ele não lhe pedisse para usar uniforme de colegial, que isso ela não faria nem morta. Era uma mulher pequena e tinha pernas grossas; definitivamente saias pregueadas e meias soquetes não a favoreciam, ficava que era uma potra.

Que não lhe aparecesse com chicotinho e cera quente porque ela achava aquelas roupas muito desconfortáveis e detestava sentir dor. E já ia logo avisando: contorcionismo ela só podia fazer com autorização médica, pois tinha câimbras e dor nos quartos, e, além disso, sofria do ciático.

Também tinha dermatite de contato, alergia à borracha, corante, produtos químicos em geral e metais não preciosos – ela era chique –, então que ele esquecesse a idéia de correntes e algemas.

Também era bom disarriscá aquele gel milagroso que tem para vender, que ela tava fazendo tratamento para pele e não ia corrê o risco de pegá um grossero e nem pensar em perfume barato, ainda que promovesse maravilhas; cheiros fortes lhe davam enxaqueca, e aí, meu amigo... “Adeus tia Chica!”

Banho de champanhe só se fosse da boa, porque banho de sidra ela não tomava por uma questão filosófica – a religião dela não permite. Chantilly ela achava enjoativo e nem podia usar porque tinha hérnia de hiato; o seu estômago não se dava bem com comida gordurosa e, ademais, ela estava com o colesterol meio alto. Só abria exceção mesmo para o chocolate, mas tinha que ser Ferrero Rocher; parece que não tem nessas lojas de safadeza, só no supermercado. É caro, mas é gostoso. É crocante e dentro tem creme de chocolate e uma avelã inteira. Deve ser por isso que a gente come e diz assim: – Bom, bom!

Daqueles quartos cheios de espelhos ela já gostou mais. Ultimamente tinha notado que a qualidade dos espelhos vinha decaindo visivelmente, então desgostou. Para ser sincera, tava é garrando nojo.

Venda nos olhos ela gostava, mas alguém tinha que ficar segurando a mão dela por causa do medo de escuro. Agora, filme caseiro ela não fazia por nada desse mundo: primeiro, por causa daqueles “diálogos” que não lhe permitiam expressar toda a sua capacidade dramática; segundo porque, conforme o ângulo, ela não era fotogênica. (Aliás, de uns tempos para cá não sabia o que estava acontecendo, se achava irreconhecível nas fotos). 

Palavrão ela sabia todos desde criancinha, mas não falava porque não fica bem para uma mulher direita. Palavras de baixo calão só quando ela tava muito puta e depois de olhar para os lados. Ultimamente ela até que andava meio desbocada. Eram as circunstâncias.

Era perfeccionista, portanto, nem pensar em encontros apressados dentro de elevadores e banheiros de avião, que ela não era mulher de correr o risco de ter que largar o que estava fazendo ao dar de cara com uma daquelas placas: “Sorria, você está sendo filmado”.

Tirando isso, o resto ela topava. Não obstante, era bom deixar claro que, nunca, nunquinha, jamais, em tempo algum, nem que a vaca tussa e Jesus desça a Terra em todo o Seu esplendor, ele esperasse dela um ménage à trois. Ela era muito ciumenta, não dividiria seu homem nem com boneca inflável. Se ele aparecesse com essas novidades, já tinha decidido:

Eu furo ela!
 


(03 de fevereiro/2007)
CooJornal no 514


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com