(“Só não me venhas de borzeguins ao leito”)
Dirigindo pela
cidade ela passava diariamente pela vitrine de uma sex-shop. A loja fica
num cruzamento movimentado onde existe uma sinaleira. Normalmente as
pessoas transitam por ali distraídas entre preocupações e contas a
pagar, mas quando o sinal fecha, pode-se ver que todos os olhares se
voltam imediatamente para a vitrine. Ela dizia-se impressionada em ver
até onde podia chegar a criatividade humana.
A vitrine tinha
objetos, acessórios e fantasias para todos os gostos. Desde as
presumíveis fantasias de colegial, odalisca e policial, a umas coisas
que ela não sabia categorizar, como aquele traje muito esquisito feito
de umas tiras de couro preto cheias de tachas metálicas. Parece que a
intenção foi criar uma fantasia de macho, mas o resultado final foi um
desastre até porque, para usar aquilo, era preciso um certo
talento para a maricagem.
Havia, ainda, um
sem-fim de retalhos de pano adornados de obviedades, como plumas e pele
de oncinha, e uma manequim vestida de empregada – saia curtíssima preta,
avental branco e touca de babadinho –, faltando só o espanador, mas não
era preciso ser muito inteligente para imaginar que o patrão não
permitiria que a moça ficasse de mãos abanando por muito tempo. Ela se
perguntava: – Que mulher teria a fantasia de ser doméstica, meu Deus?
Só mesmo um homem para ter uma fantasia tão estapafúrdia!
É claro que ela,
uma mulher direita, mãe de família, nunca tinha entrado numa sex-shop;
mas já tinha visto muita coisa nas revistas, que foi-se o tempo em que
revista feminina se destinava a ensinar corte e costura, bordado e a
arte de fritar um ovo com maestria. Isso é coisa daquele tempo em que as
mães ensinavam para as filhas que “marido a gente agarra é pelo
estômago”.
As moças agora
querem é descobrir onde fica esse raio de ponto G, pois desde que as
prendas domésticas caíram em desuso - hoje tem máquina que faz
tudo – a coisa tá preta e, para arranjar marido, o jeito agora é apelar
para a ignorância. A saída é tratar de aprender os segredos das
mulhé-da-vida, que isso nunca sai de moda.
Ela achava tudo tão
grotesco, tão feio e de um design tão desestimulante, que duvidava que
um homem pudesse ficar animado com aquelas roupas, objetos e fantasias.
Ela sentia vontade de rir.
Fantasia sexual é
um negócio esquisito; cada um tem a sua, e ela também, já que era filha
de Deus. Sentia uma fortíssima atração por canetas, gravatas, bengalas,
saxofones, charutos e fardas, de preferência daquelas do Exército, de
tom verde-ditadura. Também achava lindo quando o homem puxava de uma
perna.
Temperar a vida
amorosa é muito bom; brincar de casinha, de comidinha e de médico, mas
para ela, em matéria de afrodisíaco, nada se comparava ao bom humor, à
dança e à vida intelectual e emocional ativas. Sabia, no entanto, que
relacionamento humano é um tema delicado e que a gente tem que ceder
aqui e ali se quiser ser feliz; que tem o gosto da gente, mas também tem
o do outro, o que sempre envolve algum risco de desacerto.
Também sabia que
“quem não arrisca, não petisca”, por isso, em nome da política de boa
vizinhança, resolveu flexibilizar algumas posições, quer dizer, algumas
coisas, e aprender a transigir. Estava predisposta a abrir um espaço de
negociações, mas “Só não me venhas de borzeguins ao leito!”.
Que ele não lhe
pedisse para usar uniforme de colegial, que isso ela não faria nem
morta. Era uma mulher pequena e tinha pernas grossas; definitivamente
saias pregueadas e meias soquetes não a favoreciam, ficava que era uma
potra.
Que não lhe
aparecesse com chicotinho e cera quente porque ela achava aquelas roupas
muito desconfortáveis e detestava sentir dor. E já ia logo avisando:
contorcionismo ela só podia fazer com autorização médica, pois tinha
câimbras e dor nos quartos, e, além disso, sofria do ciático.
Também tinha
dermatite de contato, alergia à borracha, corante, produtos químicos em
geral e metais não preciosos – ela era chique –, então que ele
esquecesse a idéia de correntes e algemas.
Também era bom
disarriscá aquele gel milagroso que tem para vender, que ela tava
fazendo tratamento para pele e não ia corrê o risco de pegá
um grossero e nem pensar em perfume barato, ainda que promovesse
maravilhas; cheiros fortes lhe davam enxaqueca, e aí, meu amigo...
“Adeus tia Chica!”
Banho de champanhe
só se fosse da boa, porque banho de sidra ela não tomava por uma questão
filosófica – a religião dela não permite. Chantilly ela achava
enjoativo e nem podia usar porque tinha hérnia de hiato; o seu estômago
não se dava bem com comida gordurosa e, ademais, ela estava com o
colesterol meio alto. Só abria exceção mesmo para o chocolate, mas tinha
que ser Ferrero Rocher; parece que não tem nessas lojas de safadeza, só
no supermercado. É caro, mas é gostoso. É crocante e dentro tem creme de
chocolate e uma avelã inteira. Deve ser por isso que a gente come e diz
assim: – Bom, bom!
Daqueles quartos
cheios de espelhos ela já gostou mais. Ultimamente tinha notado que a
qualidade dos espelhos vinha decaindo visivelmente, então desgostou.
Para ser sincera, tava é garrando nojo.
Venda nos olhos ela
gostava, mas alguém tinha que ficar segurando a mão dela por causa do
medo de escuro. Agora, filme caseiro ela não fazia por nada desse mundo:
primeiro, por causa daqueles “diálogos” que não lhe permitiam expressar
toda a sua capacidade dramática; segundo porque, conforme o ângulo, ela
não era fotogênica. (Aliás, de uns tempos para cá não sabia o que estava
acontecendo, se achava irreconhecível nas fotos).
Palavrão ela sabia
todos desde criancinha, mas não falava porque não fica bem
para uma mulher direita. Palavras de baixo calão só quando ela tava
muito puta e depois de olhar para os lados. Ultimamente ela até que
andava meio desbocada. Eram as circunstâncias.
Era perfeccionista,
portanto, nem pensar em encontros apressados dentro de elevadores e
banheiros de avião, que ela não era mulher de correr o risco de ter que
largar o que estava fazendo ao dar de cara com uma daquelas placas: “Sorria,
você está sendo filmado”.
Tirando isso, o
resto ela topava. Não obstante, era bom deixar claro que, nunca,
nunquinha, jamais, em tempo algum, nem que a vaca tussa e Jesus desça a
Terra em todo o Seu esplendor, ele esperasse dela um ménage à trois.
Ela era muito ciumenta, não dividiria seu homem nem com boneca inflável.
Se ele aparecesse com essas novidades, já tinha decidido:
– Eu furo ela!
(03 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 514