(aproveitando a
deixa do Artur da Távola)
Certa vez ouvi que
na hora da nossa morte Deus nos cobrará, em dobro, cada instante de
alegria e prazer que tivermos desfrutado em vida. Eu era uma jovem mãe
de vinte e poucos anos, cujos sonhos incluíam, de forma muito
particular, muita alegria e muito prazer, mas não temi - e ainda não
temo -, a cobrança tardia. Faço o melhor que posso, portanto, danem-se
os deuses; no momento do Juízo a gente vê o tamanho da conta. Se der eu
pago, se não der, tento negociar a dívida, e se eles insistirem em
inflacionar o prejuízo, eu topo voltar e pagar em serviços à comunidade.
O desejo de
transcender os limites da nossa humanidade é o que nos faz humanos,
saudosos da nossa origem divina. Theilhard de Chardin alertou que
“não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual. Somos
seres espirituais passando por uma experiência humana”.
Se assim é, por que
tudo o que dá prazer e alegria deve ser pecado? Tomemos o pecado
original, o fardo alheio que alguns teimam em colocar em nossas costas
desde criancinhas. Por que, raios, os inquilinos do Paraíso,
criados na fartura e na abundância deveriam se conformar com a
interdição de uma árvore? Por que haveriam de desviar o olhar, abster-se
de apreciar a beleza e o perfume daquele fruto – ainda por cima pintado
de vermelho! –, abrir mão de gozar do prazer de provar o seu sabor?
Penso que a
desobediência fazia parte do plano de Deus, afinal, qualquer um sabe que
chega um momento na vida em que a gente precisa aprender a desobedecer
para dar início ao processo de individuação.
Acho difícil que
Deus tenha cometido algum erro, já que é consenso de que essa é uma
prerrogativa humana, e me recuso a acreditar que Ele tenha nos preparado
uma armadilha. Se o Todo-Poderoso quisesse realmente manter a salvo o
fruto proibido não o teria feito tão bonito, colorido e perfumado, nem o
colocaria numa árvore doadora como a macieira. Eu se fosse Ele, não
teria dúvida: elegeria o chuchu ou o nabo, coisas mais sem cor, sem
gosto, sem cheiro e, ainda por cima de design duvidoso, para a categoria
“fruto proibido”, acrescentaria alguns espinhos à sua ramagem e salvaria
a Humanidade do pecado por toda a eternidade. O Rubem Alves jura de pé
junto que o fruto proibido era o caqui, tenro, suculento, colorido.
Eu, por razões já
conhecidas, assino embaixo, até porque acho que maçã é comida para neném
e para doente, feita de encomenda para pessoas de digestão delicada,
dadas a dispepsias e flatulências, e também para pessoas de fino trato,
uma vez que permite ser saboreada socialmente sem prejuízo da elegância.
Mas, pessoalmente,
acho que o “fruto proibido” bem pode ter sido a manga, fruta de cor e
perfume luxuriantes, cuja carne, a exemplo do caqui e do sexo, é
impossível apreciar sem lambuzar-se. É por isso que eu sinto que tem
alguma coisa errada nessa história. Cá comigo, penso que a tentação foi
o teste definitivo ao qual Deus submeteu a sua criatura, para medir-lhe
o grau de maturidade e preparo para herdar e dar continuidade à Sua
obra.
Todo mundo sabe que
Deus criou o mundo porque se sentia sozinho, mas eu desconfio que Ele
não teve escolha, invadido que foi por uma súbita inspiração, já que É
um artista. Diante de tanta beleza, Deus deve ter sentido
necessidade de ter alguém, um amigo talvez, para mostrar a Beleza e a
Bondade da Sua obra. Como acontece com a gente quando faz uma reforma na
casa, descobre uma receita nova de bolo, ou ganha um filho, e pega o
telefone e avisa os amigos para comunicar a novidade, convidando-os para
fazer visita. Penso que Deus criou o mundo pelo simples prazer de ver a
obra realizada, como qualquer artista – e principalmente por obrigação
de ofício. Essa história de pecado e punição foi invenção de alguém num
mau momento da sua vida.
Na minha versão do
Paraíso, a curiosidade humana é não a razão da sua queda, mas a da sua
redenção. Inegavelmente alguma coisa aconteceu – eu também não tenho a
menor idéia do que possa ter sido –, e aí a história tomou outro rumo. O
homem inventou o pecado, colocou a culpa nas mulheres – o que, aliás,
não é novidade desde tempos imemoriais (vide Lilith, Eva, Zélia, Camila,
Diana, Pandora, Psiquê, Sêmele e Cia. Ilimitada).
Lilith, a primeira
fêmea nascida não de uma costela, mas do mesmo sopro divino que pariu
Adão, foi a precursora da luta pela libertação feminina ao se
insubordinar à determinação de deitar-se sob o macho e submeter-se
a ele, sendo, pela recusa, proscrita do Paraíso.
Parece que nos
limites do Paraíso, além do cardápio restritivo, só era permitido fazer
o básico “papai e mamãe”, daí porque Lilith disse ao Todo-Poderoso: –
Tô fora! Pudera. Essa rotina de feijão com arroz todo dia, todo dia,
por toda a eternidade acaba com qualquer relacionamento, e constitui,
por si só, motivo mais do que suficiente para se querer cair fora
daquele lugar.
Súbito me dou conta
de que podemos nos assossegar. Os problemas entre homens e mulheres são
imemoriais e nem Deus acertou da primeira vez; aliás, nem da segunda,
pois até Eva que chegou toda meiga, toda cordata, parecendo lisonjeada
em ser a imagem e semelhança de Adão, algo assim como uma xilogravura
numerada de Deus, acabou – ela também – por desejar mais do que aquela
vidinha Modelo Paraíso, tipo “todo dia ela faz tudo sempre igual”
da qual nos falava o Chico, e tanto fez que acabou, por força das más
companhias, tornando-se a primeira publicitária da história da
Humanidade. Pobre Adão, que carma! Deve advir daí o medo e a histórica
incapacidade masculina para compreender as mulheres. Deu no que deu.
Honestamente acho
que não era motivo para tanto. Desconfio até que Deus queria mais é dar
um susto, algo como colocar os filhos de castigo num quarto escuro. O
problema é que, assoberbado pelas demandas divinas, distraiu-se por um
instante e quando foi ver era tarde demais. O resto nós já sabemos.
As religiões
adoraram a idéia de pecado, já que ela serve como uma luva ao propósito
de conter o animal humano e a sua natural atração pela vadiagem, o
desfrute, a ociosidade, o onírico e o prazeroso. Em outras palavras, a
disposição para reconstruir o Paraíso. Aliás, se dependesse do Adão, ele
ainda estaria lá, comendo só os frutos permitidos e coçando.
Aqui entre nós,
mulher nenhuma agüenta um macho frouxo por muito tempo. Bem diz a Adélia
que “até a princesa da Inglaterra, Deus a tenha, arranjou o que fazer
pelas creches do mundo”.
“(...) marido
tem que proibir alguma coisa, nem que seja do tipo: ‘quero a minha
correia dependurada nesse prego e ninguém me tire ela daqui’. Porque
senão as mulheres ficam muito infelizes e começam a ter maus pensamentos
de querer ficar viúvas, de sumir no mundo, de dar os filhos pra avó
criar, essas coisas.”
Acho que não é de
proibição que a mulher gosta; aliás, acho mesmo que não gosta. Mulher
gosta é de homem que escolhe, ele mesmo, em que prego põe a sua correia,
sem precisar de mulher que o diga ou autorize. Mulher gosta é de macho
que não se deixa cangar e sabe demarcar o seu território –
urinando nos cantos – para que ela possa cuidar das suas obrigações e
parir suas crias sossegada, confiante de contar com uma presença viril
quando necessário.
Foi o que faltou no
Paraíso. Cansada daquela vidinha sem novidades e com o saco cheio
daquele macho que só sabia dizer Amém, Eva sentiu vontade de sumir no
mundo. Uma mulher precisa admirar o seu homem, sentir orgulho de estar
ao seu lado e para isso é preciso que ele saiba dizer não de vez
em quando. Sem admiração, não há amor, nem desejo que resistam ao tempo,
muito menos à eternidade. Perde a graça, sabe como é?
O problema é que o
soneto acabou saindo pior do que a emenda; a pobre Eva foi liberada, mas
junto teve que carregar aquele encosto. Cá entre nós, para quem foi
feito à imagem e semelhança de Deus, o tal de Adão me saiu um rascunho e
tanto!
Ouso pensar que as
mulheres primordiais tenham compreendido a grandeza da missão que nos
foi confiada pelo Criador, pois se não fosse pela transgressão feminina
a humanidade jamais teria saído daquele estado quase vegetativo e a
Grande Obra restaria inacabada.
A verdade é que, em
estado natural, somos seres ardentes, ávidos, dados ao destempero e ao
transbordamento. A meu ver essa tendência para a exuberância não nos
afasta do divino, ela nos reconcilia com o divino. Afinal, não seriam
essas palavras plenamente aplicáveis à Obra do Senhor?
Quem seria capaz de
criar uma obra de tamanha envergadura senão um espírito inflamado,
megalomaníaco, febril e apaixonado, vaidoso, ávido por elogios?
Imagino-O entregue ao êxtase criativo, embriagado de Beleza, tal qual
Dalí, Monet, Gauguin, Michelangelo, Beethoven, Gaudí, Adélia Prado,
Drummond, Joãozinho Trinta e João Bosco, triturados, amalgamados e
elevados à máxima potência.
A Criação é obra de
um deus delirante, não de um deus complacente. Quintana disse pra quem
quisesse ouvir: “esse mundo pode ser até que não preste, mas é
tão bonito de se ver...”, por isso eu me pergunto como poderia o
criador de uma obra original, superlativa, inventor de “tudo o que aí
está”, inclusive de um espécime muito estranho, que vive vestido, mas
nasce nu e morre pelado, que vê a si mesmo como a obra-prima da Criação
e por isso se mete a destruir o mundo não obstante não dê conta de sua
própria vida e de suas contradições, como pode um Deus assim castrar,
punir a curiosidade, a criatividade, o prazer de viver? Seria no mínimo
incoerente!
Creio ardentemente
que a vida em seu esboço original é feita de gozo, riso e dança. Se
olharmos atentamente, veremos que a vida é toda celebração, abundância,
tributo à beleza, ao prazer, à alegria. Não posso aceitar que Deus, em
Sua onipotência, sabedoria e reconhecido apreço pela beleza, cogite a
dor e o sofrimento como fontes de aprendizagem. Para mim, alguma coisa
deu errado no processo.
Sou da turma do
Nietzsche. Como ele, me recuso a acreditar num deus que não saiba
dançar.
*escrito em 2004,
versão reduzida.
(10 de fevereiro/2007)
CooJornal
no 515