17/02/2007
Ano 10 - Número 516

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 
Às vezes sinto que já nasci velha

“O diabo não sabe mais por ser velho que por ser diabo.”
Ingenieros


Sou uma mulher muito antiga. A bem da verdade, nasci na metade do século passado, mas essa sensação de que errei de século sempre me acompanhou, desde criancinha. Quando criança, eu tinha nostalgia do futuro. Cresci, tinha nostalgia do passado; não do passado vivido, mas dos sonhos ou, talvez, da antiga capacidade de sonhar.

Minha alma é muito antiga e veio de muito longe. Sou de ascendência italiana e portuguesa, dos Açores. Dos italianos tenho o talento para a alegria, a voracidade por viver a vida e a passionalidade, o gosto pela dança e pela conversa ao redor de uma mesa farta de pão e vinho, mas tenho a alma lusitana – sou ibérica, madrilena –, tenho o espírito nostálgico do açoriano.

Para completar, moro numa ilha – e tu sabes, ilha é lugar de desterrado – que outrora se chamou Ilha de Nossa Senhora do Desterro. Daí que eu já nasci desterrada, condenada ao banzo, à nostalgia. O fado, assim como o flamenco e o bolero, traduz a minha verdadeira essência. Sou d’outros tempos. Às vezes sinto que já nasci velha e que tudo em minha vida se faz tarde.

Apesar dessa sensação às vezes incômoda de ter nascido no século errado, com a antiguidade da minha alma eu já estava acostumada. O problema é o meu corpo que agora também deu para ficar antigo, e percebo que não há nada que eu possa fazer para impedi-lo, preciso me acostumar. Difícil é perceber que após o esforço para aceitar uma nova ruga, ele me aparece com uma novidade. Para ser sincera, dói mais no começo, mas sempre dói. Tento me consolar pensando que só se é jovem uma vez na vida e por pouquíssimo tempo.

A juventude é um momento muito breve e, assim como uma febre, dá e passa. A velhice não. Envelhecer é para toda a vida, ao menos para aqueles que têm esse privilégio; afinal, só não envelhece quem morre cedo e, a se considerar a alternativa, envelhecer até que não parece tão ruim. Estaria mentindo se dissesse que gosto de envelhecer. Não gosto, preferia não ter que fazê-lo, mas já que essa possibilidade não existe, então que a velhice venha, e que seja bem-vinda.

Quero é amadurecer, isso eu quero, e com veemência. Envelhecer e amadurecer são processos distintos e não necessariamente simultâneos. Eu tenho me esforçado.

Dizem os antigos que cada idade tem a sua formosura. Quando fiz trinta e seis anos, um homem me disse – Ser bela aos vinte anos é quase obrigação; ser bela aos quarenta, é uma arte. Recebi a observação como uma lição de vida.

Não tenho a ilusão de querer parecer mais jovem do que sou, nem escondo a idade; sou, com orgulho, uma mulher de mais de meio século. Daqui a exatos sete anos terei privilégio na fila do banco e vou poder andar de ônibus sem pagar passagem – dia desses uma jovem me cedeu o lugar no ônibus. Considerando que as pessoas andam tão indelicadas, eu pensei: mau sinal! Lembrei do Rubem Alves.

O meu rosto vem gradativamente se transformando para assumir a sua expressão definitiva. Aqui e ali surge, a cada dia, um novo fio de cabelo branco. Já esteve mais longe o dia em que eles embranquecerão completamente; parei de arrancá-los faz tempo. Difícil é perceber a perda da atratividade num mundo feito de tantas carnes expostas. Diante da abundância de peitos inflados, barrigas e coxas, a solução foi mudar de raia. Há alguns anos passei a correr na categoria máster.

Sou faceira, me cuido, mas ando mais ocupada em pensar a minha vida, a minha história, através de uma abordagem estética. Já desperdicei tempo demais ensaiando viver, é chegada a hora. Estou naquela idade em que se descobre que viver é às veras. Quero viver de maneira que valha a pena morrer no final. Quando se atinge essa compreensão, tudo se torna relativo.

Eu fui tomada de um fortíssimo senso de urgência. O que antes parecia importante, premente, indispensável, difícil, proibido, inalcançável ou obrigatório passou por um crivo. Observei, aliviada, que poucas coisas são realmente importantes e que poucas lutas valem à pena.

Na maturidade pude identificar preconceitos, crenças e auto-limitações, descartar antigas impressões e valores obsoletos, pude largar o fardo e deixar para trás o que não me pertencia ou o que não servia mais; selecionei, sob outros critérios, o que vale a pena carregar, abrindo espaço para construir uma nova hierarquia de valores, outra ordem de prioridades e relações humanas profundas. Hoje, só carrego o que é do meu balaio. Quem quiser que carregue o seu.
Na maturidade tenho a audácia de sonhar novos sonhos e de lutar por sonhos antigos que ainda estão no prazo de validade. Compreendi que cabelos brancos, por si só, não conferem dignidade àquele que não foi digno durante toda a vida. Quem não foi sábio quando jovem, não o será porque é velho, quem não foi respeitável ou crível, não será agraciado com um troféu de credibilidade porque envelheceu. Só envelhece bem quem bem constrói a sua história. Morre bem quem bem viveu. Akira Kurosawa mostra isso com inenarrável sensibilidade e beleza em Dreams.

Aprendi que a história de uma vida só pode ser lida de trás para diante. Um homem – como uma mulher – vale o que faz da sua vida até o último dos seus dias. O que se fez no passado, os equívocos, assim como os acertos, conta, mas o que se faz hoje tem maior peso, porque denuncia o aprendizado, aponta para o processo evolutivo, direciona e constrói a história pessoal. As escolhas dizem quem a gente está se tornando. Envelhece quem desiste de aprender, quem abre mão da alegria e esquece que viver é dinâmico, que a vida é processo.

Não negocio com o tempo, este é um esforço infrutífero; tento minimizar os seus danos usando os recursos que tenho, mas aceito com gratidão a minha passagem pelo tempo. Ficar velha eu aceito; só não quero é ficar obsoleta.

Que os deuses me concedam ficar velha com alegria, música, livros e gente ao redor da mesa. Deus me livre da amargura. Quero ser como a avó de uma amiga que aos oitenta e tantos anos pinta as unhas de vermelho e não perde uma festa.

Diz a neta que ligou para saber como ela estava passando, mas que a avó mandou dizer que não poderia atendê-la pois estava atrasada para o cabeleireiro; teria uma festa à noite. No dia seguinte, a neta ligou novamente: “_ Oi, vó! E então, como foi a festa ontem?”. A avó respondeu: “_ Ah, minha filha, a festa foi ótima, pena que eu fui com uma cinta de ficar em pé e um sapato de ficar sentada”.

Quero ser assim, faceira, e me dar ao luxo de ainda cometer uma imprudência aos oitenta anos.

 

*escrito em 2004, versão reduzida.

 


(17 de fevereiro/2007)
CooJornal no 516


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com