10/03/2007
Ano 10 - Número 519

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

Hoje tem festa n’aldeia

Queres conhecer a alma de um lugar? Foge dos shoppings e dos condomínios, esquece os hipermercados, as grandes avenidas, os bares da moda, as praias indicadas nos guias e mapas turísticos. Os museus deixa pra depois, assim como os restaurantes que te foram recomendados.  Adentra as ruelas e os becos, as lojas populares e os mercados. Vai de ônibus. Entra na igreja mais antiga, ajoelha, pede licença aos santos e fantasmas do lugar, depois sai à rua e observa.


O ônibus demora e chega lotado já que hoje é sábado. Desço no TICEN, e sigo rumo à Felipe Schmidt, cortando caminho por dentro do Mercado Público. Cheiro bom de fruta misturado com cheiro forte de peixe – maresia - e uréia, cheiro ruim dos homens.

Vou andando entre as gentes e as bancas, e à mistura de cheiros soma-se o alvoroço de sons – Olha a corvina e a cocoróca ovada aqui, ô freguesa!; – O Deputado Fulano de Tal empregou a familhada toda na Assembléia, uma poca vergonha!; – Vou tê que vendê o carro pra pagá o agiota.; – Tia, compra uma bala pra me ajudá? Tô com fome...; – Encontrei co’a Celina, a mulhé tá que tá lustrosa...; Sandalhinha da Sandy e Júnior barato é aqui, ó! Vamo levá pra neta, ô freguesa! Um deles diz bem alto e olhando em minha direção. Quero matar o desgraçado! Faço de conta que não é comigo, depois saio rindo da inabilidade dele e das minhas pobres ilusões.

Entro na Igreja de São Francisco com o coração oprimido pelo assédio dos pobres que têm ponto de esmola na calçada em frente. Sem coragem de olhá-los nos olhos, passo apressada. Ajoelho no altar de Santo Antônio de Catejeró, santo poderoso que já me concedeu muitas graças e nem preciso fazer força para rezar. Pelo menos enquanto a dona Lilita continuar cantando com aquela voz doce e celestial. Basta ficar quieto e a alma da gente se eleva sem precisão de Pai-Nosso ou Crei’m Deus Pai. Saio e volto ao meu velho drama de consciência; gastei os trocados com as velas. Tem dia que eu esqueço as velas e distribuo os trocados.

Súbito, esqueço as angústias. Aos sábados, a aldeia é uma festa. Há música por todo lado, teatro, palhaços, estátuas vivas, rodas de capoeira. Sinto a alma leve. Um negro de cabelo rastafári, canta: “O amor e a agonia, cerraram fogo no espaço, brigando horas a fio, o cio vence o cansaço, e o coração de quem ama, fica faltando um pedaço, que nem a lua minguando, que nem...”, no outro lado da rua, alguém toca harpa, o instrumento preferido dos anjos, todo mundo sabe. Os sons por um breve momento se fundem, e os lamentos sensuais do Djavan são acompanhados pelo som da harpa, como se o Céu dissesse Amém aos desejos profanos dos homens. Num instante, corpo e espírito em comunhão. Puro Tao.

Sigo em frente e encontro velhos amigos. A conversa é apressada, a gente promete se encontrar, mas sai sem dar o telefone. Tem amizades que são assim. A gente vive longe, mas se gosta. A alegria do reencontro é sincera, por isso a vida se encarrega de nos reunir de vez em quando, numa esquina qualquer.  “_ Cartão telefônicoo...”, grita o cego, tlac, tlac, batendo o cartão na palma da mão.

Sou despertada das minhas elucubrações por um som de flauta: tantan, tantan, tantan, tantan. Tantam, tantarararam tantam, tantam, tantan, tantan, tantan tantan tarararan tantam..., são os acordes sensuais de Carmem, a passional cigana de Bizet.

Acho lindo! Quando alguma coisa mexe comigo, costumo dizer: Me acorda a Carmem! –, vontade doida de botar uma flor vermelha nos cabelos, uma mão na cintura, a outra segurando o rodado da saia, e sair dançando. Mudo a cadência do andar. Tantam tantam, tantam, tantam. Carmem no meio da rua, tem palco mais adequado? _ Dólar, câmbiooo!

Vou direto até a Praça XV, onde sou abordada por uma jovem cigana – coincidências não existem – que insiste em ler a minha mão, segurando-a com força para eu não escapar. Digo que não, de jeito nenhum, minto que não tenho dinheiro, ela diz que vai ler de graça, porque eu sou uma mulher muito bonita e que os meus olhos são lindos. Ah, o poder mágico das palavras! Num instante, lá estou eu sendo levada, docilmente, pela mão, até uma velha cigana que fica sentada no chão, num canteiro de flores, o que por si só compõe um quadro belíssimo.

A velha cigana lê a minha mão, enquanto a outra sai para agenciar mais um consulente. Diz que eu tenho um coração nobre, que sou muito boa e que já sofri muito nessa vida por causa de amor. Como diria a minha mãe – Bidú! – isso vale para quase todo mundo –, que eu vou viver muitos anos e que vou ser muito feliz; gostei dessa parte.

Afirma que eu sou ou doutora ou professora – essa não valeu, porque eu estava com um livro debaixo do braço – diz que tem um homem que é perdidamente apaixonado por mim, mas que não se aproxima porque tem medo de não ser correspondido, penso – essa é clássica –, aí a velha me diz, olhando no fundo do fundo dos meus olhos, que eu tenho uma filha de nome Maria e um filho de nome João e eu estremeço, porque tenho, sim, uma filha com esse nome, e, para piorar, eu não só tenho um filho chamado João como tenho dois. Arrepiou-me até os cílios.

Como era de esperar, me pede uma cédula para benzer: _ É pra dar sorte. Saio do transe, o golpe é velho eu vi no Fantástico. Sigo para o meu derradeiro destino, a Livraria Catarinense. Lá tem música da boa e gente que gosta de livros, de café e de música. Assim fica fácil fazer amigos, porque a gente já começa com afinidade e cheio de assunto e é comum uma pessoa desconhecida levantar da sua mesa, pedir licença para espiar os livros da outra, interessado no assunto e, às vezes, na pessoa. Com a alma, a mente e o corpo satisfeitos, volto para casa.

No caminho, passo pelo vão central do Mercado. Num extremo rola a alegria - Deixa a vida me levá, vida leva eu..., no outro, um homem canta a história triste de um amor descornado, música de bordel – Negue, seu amor e seu carinho, diga que você já me esqueceu... E, no meio, como um Moisés a separar aquele mar de gente, a Bíblia apertada no peito, a mão apontando para o céu, um homem bonito, moreno, cabelo cortado rente, barba feita, a camisa muito branca, engomada – a patroa é caprichosa –, brada aos pecadores que aquilo é a voz de Lúcifer, desviando os homens dos caminhos de Deus. Senti vontade de tirá-lo para dançar, coitado.

Na mesa ao lado, um homem transgride, despreocupadamente, o nono mandamento, lançando um olhar de peixe morto para a mulher do próximo, já que o próximo levantou para comprar cigarros. Bem se diz que fumar faz mal.

Êita vida boa!
(Pra ficar perfeita só falta uma bala Rocôco ou um sorvete do Satélite!)


                                                                                      

(10 de março/2007)
CooJornal no 519


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com