17/03/2007
Ano 10 - Número 520

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

Isso não se faz com uma dama!

O problema apareceu na sexta-feira de carnaval. Amanheci com a vista embaçada, o olho grudado, lacrimejante - coisa estranha! -, corri ao banheiro apenas para confirmar o que eu tanto temia.

Alojada no canto interno do meu olho esquerdo lá estava ela! Uma legítima representante da popularíssima, prosaica, nojenta - e supostamente extinta -, remela. Remela, uma remela! Eu, eu, com remela! C-o-m-o pude “pegar” isso? Que eu saiba remela é coisa de gente sem cuidado, sem higiene! Eu sou limpinha, sou cuidadosa, lavo as mãos freqüentemente...

Depois de horas de indignação e desânimo resolvi parar de procurar explicações e corri à farmácia disposta a lutar até o limite das minhas forças e exaurir os recursos da ciência médica para combater a inominável, prometendo que não descansaria enquanto restasse uma única bactéria em minha pobre conjuntiva.

Munida de um arsenal formado por flocos de algodão, frascos de água boricada, soro fisiológico e uma caixa de cotonetes - para desalojar as intrusas -, voltei para casa e dei início à guerrilha inspirada pela certeza da superioridade da espécie humana sobre todas as criaturas. O que antes era certeza revelou-se vã ilusão; fui humilhada e reduzida à minha ilustre insignificância. Descobri que bactérias também são criaturas de Deus!

Passei a “terça-feira gorda” com o olho vermelho, inchado, coçando, cheio da... “referida”. Não esmoreci! Vendo que não conseguiria vencer sozinha aquela difícil batalha, saí à procura de reforço. O médico disse que o quadro era grave, mandou que eu continuasse com os cuidados de higiene, que usasse apenas lenço de papel para enxugar os olhos, receitou um colírio e sugeriu que, passada a crise, eu procurasse um especialista para verificar se houve seqüela. Nossa!

Certa de que o pior havia passado dormi confiante, a agenda abarrotada de providências em aberto. Acordei desalentada, com humor apropriado à uma Quarta-feira de Cinzas. O quadro se agravara: o olho esquerdo piorou e a “referida” deu o ar da sua graça no olho direito. A essa altura o lenço de papel já não dava conta do recado. Deixando de lado os pruridos e a elegância, apelei para o papel higiênico.

Minha cara inchou, os olhos esbugalharam, ficaram injetados de sangue, como se eu estivesse possuída pelo demônio – como nos filmes de terror – surgiram duas “bolotas” na maçã do rosto, virei um monstro! Tudo isso eu suportei, com coragem e bravura, mas quando me vi impossibilitada de ler e de usar o computador, capitulei. Procurei um especialista. A médica disse que nunca tinha visto um processo tão severo, só em livros, o que me fez sentir uma pontinha de orgulho (eu também sou humana!).

Apesar da luta, da rotina de higienização local com água boricada, cotonete e algodão, duas gotas de um tipo de colírio de 4 em 4 horas e de outro de 6 em 6 horas, depois de duas consultas médicas, exames laboratoriais, três frascos de água boricada, 4 tipos de colírio, dois tipos de antiinflamatório, 10 rolos – isso mesmo, 10 rolos de papel higiênico - que somados perfazem exatamente 300 metros de papel - e uma conta de R$ 544,00, eu tenho que admitir: elas venceram! Nós humanos não somos nada.

No retorno ao consultório, a médica explicou que o exame acusou contaminação por fungo, o que é procedente já que coleciono revistas antigas e havia arrematado um exemplar publicado em 1936, uma semana antes do carnaval. Ponto para o Bloco de Fungos! A doutora mudou a medicação alertando que eu não usasse maquiagem em hipótese alguma, nem tintura para o cabelo – e precisava? Eu ainda tentei esperançosa – em uma semana, quem sabe? A japonesa permaneceu irredutível! Não me contive e disse com certo ar de má-criação juvenil: Sim, batom pode? E a japonesa impiedosa: - Pode!

Hoje, decorridos exatos vinte e três dias daquela fatídica sexta-feira, posso dizer que melhorei, mas continuo em tratamento. A “referida” diminuiu, mas deixou uma representação nada diplomática que compromete a minha vida social e profissional – continuo no regime semi-aberto de cárcere privado -; tenho saído o estritamente necessário, preocupada em poupar as pessoas daquela visão dantesca. Vocês sabem de “quem” eu estou falando...

E já que agora posso ler novamente e voltei a enxergar a tela do computador, clamo aos quatro ventos: Meu reino! Meu reino por uma generosa camada de rímel preto!

(Isso não se faz com uma dama!)
 


                                                                                      

(17 de março/2007)
CooJornal no 520


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com