24/03/2007
Ano 10 - Número 521

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno

 

O “Nosso” Senhor dos Passos

Quem é de fora, como se diz, não se aborreça se essas estórias de província lhe parecem de rasa importância. Mas, é bom que saiba que é aqui, nessa pequena ilha do sul do mundo que o vento faz a curva e que, ainda que os homens de muito estudo expliquem porque as águas das duas baías se alternem em fúria ou calmaria conforme a ventania, ninguém convence a gente por causo de quê este fenômeno acontece exatamente ali, debaixo da Ponte Velha, lugar, aliás, de onde muito vivente já se jogou, desarvorado da vida, que Deus os tenha.

Ainda que tu não acredites nessas estórias de assombrado, eu vou te ser sincera: _ Pior que é! Pois se até o Senhor dos Passos que estava indo pro Rio Grande decidiu de morar aqui e, no que inventaram de fazer uma parada para abastecer o navio, se valeu da tal ventania como desculpa? Dizem os antigos que, cada vez que o navio se preparava pra sair, Ele soprava uma ventania tão forte, mas tão forte que o navio não conseguia passar da Barra e tinha que voltar pra trás. Foi assim por três vezes, até que o povo compreendeu: Nosso Senhor queria é fixar moradia por aqui. E assim foi: - Seja feita a Vossa Vontade.

A recém teve aquele incêndio do Hospital de Caridade. Pois não é que o fogo começou exatamente ao lado da Capela e atingiu o prédio pela parte de trás, e foi queimando tudo e rodeou direitinho o altar de madeira onde estava o Senhor dos Passos sem queimar nem o altar nem a imagem do Santo? Essa ninguém me contou, nêga! Essa eu vi, com esses zólho que a terra há de comer!

E, por falar em Senhor dos Passos, eu vou contar uma coisa pra ti: teve um tempo em que as mães d’Aldeia faziam promessa de vestir os “guri-pequeno” de Senhorzinho dos Passos e, por conta disso, não cortavam os cabelos dos filhos desde que eles nasciam até os cinco anos, quando então vestiam os meninos de túnica roxa, colocavam-lhe uma coroa na cabeça e uma cruzinha de madeira nas costas e lá iam os menininhos em procissão, de mãos dadas com as mães, acompanhar o Senhor no seu calvário até o encontro com a Nossa Senhora, na Catedral.

Na volta, as mulheres cortavam os cabelos dos seus meninos e os depositavam aos pés do Santo, agradecidas pela graça alcançada. Se a precisão era muita e não dava tempo de esperar o cabelo do menino crescer, elas vestiam os anjinhos assim mesmo, nas carrera, e era comum a gente ver essas mulheres encarnando Nossa Senhora, sentadas pelo meio-fio, dando de mamar aos seus filhos, de tão pequenos. Depois lá se iam elas, Pietás em procissão, cada qual carregando nos ombros não um Senhor dos Passos, mas um Menino Jesus adormecido e também as cruzes que, no afinal das contas, eram delas, não dos seus filhos. Redimida ficava toda a humanidade, pelo sono daqueles anjos vestidos de roxo.

A verdade é que essa Aldeia tem mesmo alguma coisa de muito estranha e não é à toa que a chamam de “Ilha de casos e ocasos raros”. Há quem diga que a culpa é do Franquilin que foi bulí co’as bruxa, aí elas se arrenegaro e encantaram de vez a Aldeia e, desde então, todo mundo que passa por aqui fica encantado e é por isso que essa terra é conhecida como a Ilha da Magia. A gente não sabe bem direito o que é, mas de uma coisa a gente tem certeza, aí tem!


                                                                                      

(24 de março/2007)
CooJornal no 521


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com