Tinha vinte e cinco
anos quando casou com o velho de papel passado, mas já tava com ele
desde os vinte. Por ela não precisava, mas ele insistiu, sabia que não
durava muito, queria deixá-la amparada.
Ela era a última das
quatro filhas de Leocádio José Vieira, mais conhecido como Cadinho desde
que saiu das entranhas da mãe. Cadinho era dono do armazém mais sortido
da localidade, tinha de tudo. A placa, escrita com letra bonita de
professora, anunciava: Cadinho – Secos e Molhados em Geral,
o que, em bom português, significa: vende-se arroz, feijão, trigo e
açúcar, pau-de-sabão, réstia de cebola, fortificante, tábua pra cocho de
lavar roupa, urinol, chinelo, retrós de linha, elástico e fita de cetim,
grega pra enfeitá vestido, vassoura de piaçaba, faca, enxada,
canivete, martelo e foice, fósforo, grampo de cabelo, fumo de corda,
bala queimada, cocada, cartucho e querosena, fio de nailo,
aguardente, panela de barro e de alumínio, banha de porco, arreio de
cavalo, carne seca, lingüiça, bacalhau e demais gêneros de primeiríssima
necessidade.
O tal do homem só
sabia fazer duas coisas nessa vida: uma era cuidar da venda, outra era
cuidar das quatro filhas que criava sozinho, já que a patroa pariu de
vereda, com intervalo de um ano e dois meses entre uma criança e outra,
e depois morreu. Antes disso, tinha sido uma moça muito bonita. Já o
caso dele nunca teve alteração. O que aquele cristão tinha de bom, tinha
de feio, desde pequeno, coitado. Todo mundo reparava na diferença dos
dois. Ao vê-los de braços dados na saída da missa, comadre Laurinda, que
não sai da janela, dizia baixinho: – Vem vê, vem vê... ô casal mais
disparecido!. Quem estivesse por perto, concordava de
pronto.
Depois que a mulher
morreu, ele nunca mais quis sabê de outra, que mulher que nem aquela não
se acha duas. Quando precisava se aliviá, visitava as mulhé-da-vida. Ia,
fazia o serviço e voltava bem rápido, porque não gostava de deixar as
meninas sozinhas. Das quatro, apenas ela herdou da mãe a formosura; as
outras três saíram ao pai, escarrado.
A mais velha não era
propriamente feia, mas ô rapariga sem graça! Ajudava o pai na venda, era
esperta pros negócios, fazia conta de cabeça, sem precisar de
apontamento. – Não qué sabê de casá; tem medo de pegá cria e morrê
fraca que nem a mãe. – Tá certa ela! A segunda, mais
do que feia, era arisca, parecia um porco-espinho. Só falava com o pai e
as irmãs, e, mesmo assim, apenas o necessário e com os olhos abaixados.
Não ia a lugar algum, nem à igreja, apesar de ser, de todas, a mais
devota, razão pela qual o pai, zeloso, mandou construir um quarto só
para ela, com um oratório e um monte de santo para a filha poder rezar
sem precisão de sair de casa.
Aos domingos, para
garantir a salvação da moça, o pai convidava o padre Sílvio para
almoçar. Depois do almoço, um breve descanso na esteira, o padre dizia:
– É só o tempo da madorna, minha filha..., e lá se ia ele
pro quarto do oratório dar confissão e comunhão para filha devota do
Cadinho. O padre e a moça ficavam lá co’a porta fechada, que ela dizia
que tinha medo de que as irmãs ouvissem a conversa. O Cadinho matutava:
– Mas que tanto pecado tem essa guria, se nem saí de casa ela
sai?. Ela respondia pro pai que eram uns sonho ruim que a
atormentavam de vez em quando e também por causa da penitência – o terço
– que o padre fazia questã de rezar junto com ela.
A terceira filha,
mais do que feia, era magra além da conta. Se fosse mais bem fornida de
carnes até que a guria tinha arrumado marido já que era tão prendada.
Cuidava da casa, fazia bolo e uma rosca de polvilho que dava gosto,
bordava, cerzia e costurava, fazia renda, crivo, tricô e crochê e, nas
horas vagas, ainda pintava porcelana que o pai botava para vender na
casa de comércio.
Tinha mania de
limpeza; não podia ver pó em cima da mesa que já vinha com um paninho.
Mas – tadinha –, aquilo era mais seca do que “bacalhau de porta de
venda”, o que restringia, e muito, as suas possibilidades de
acasalamento. Os moços diziam que ela não ia agüentá o repuxo, que,
conforme a pegada, ela quebrava no meio.
Da quarta, a patroa
morreu do parto. A criança, prematura, inicialmente foi dada como morta
– Nasceu toda roxa, nem não respirava. Chegou a ser
colocada na essa junto com a mãe. – Cena mais linda! A mãe
parecia uma Nossa Senhora ladiada de
anjo e de flor. A madrinha, que não saiu um minuto do lado do
caixão, nem na madrugada, teve a impressão de ter visto um sutil
movimento do anjinho.
Sem falar nada para
ninguém, para não ser dada como louca, carreô as velhas para a cozinha
com um bule de café fresco, broa de milho e chimia de banana, tratando
de ficar sozinha na sala. Encostou o nó do dedo na boca do anjinho, que
sugou fraquinho, mas o suficiente para mandar a mensagem. Foi um
deus-nos-acuda.
A criança quase que
não vinga – Logo a única que saiu bonita!. Mas a reza foi tanta
que uma santa, a recém canonizada se apiedou da criatura, daí o seu
nome. Mesmo assim, viveu a vida inteira empalamada, desquarada e
intanguida. – É a falta que faz o leite da mãe, dizia o pai,
desolado.
Quando chegou a
hora, não pôde ir à escola, de tão fraca, por isso o pai contratou uma
normalista formada para vir em casa ensinar-lhe as letras. A professora
ficou, até que foi chamada para dar aulas no coleginho
das frera – O senhor me desculpe seu Cadinho, eu por mim até
que não ia, que me afeiçoei na rapariga, mas é que tem carteira
assinada... As velhas diziam: – Tá mais do que bão! Mulhé tem é
que sabê lavá, passá e governá uma tainha, pra podê casá. Mulhé que sabe
demais se atrapalha pra fazê o selviço. E, à boca pequena, os
homens comentavam: – De mais a mais, o Cadinho tá é jogando dinhero
fora, que essa rapariga não se cria.
Apesar da falação,
ela era o bibelô das pessoas do lugar. No domingo era aquela romaria
para ver como é que tava a menina. Ela
pedia – Bença, mãe!, à toda mulher que chegava, uma judiação. – A
cruz dela é pesada, minha filha!, dizia uma vizinha –
Antes tivesse ido junto com a mãe, aquela santa...,
concordava a outra, que era viúva do irmão da mãe dela, que naquela
família todo mundo morria cedo.
Pois não é que, à
força de tanto cuidado, novena, ovo de pata e feijão com prego a menina
arribô? Assim, de uma hora para outra, como por encanto, se lhe abriu o
apetite e ela desatou a comer e a ter desejos de paçoca e mariola, logo
ela que vivia com fastio. A partir daí, foi adquirindo cor e ficando
cada dia mais forte.
De primeiro, deu
para sentir vontade de chegar até a janela, só para tomar um arzinho,
depois de ir lá fora, apanhar sol, até que inventou de molhar os pé
na água do mar. O pai não queria, ficou apreensivo. De um dia para o
outro a guria botou os peitinhos, arredondou as ancas e criou cintura
passando da infância direto para a mocidade, sem escalas, como se a
natureza só estivesse esperando o sinal verde para principiar, e
concluir, o seu trabalho.
Quando apareceu na
igreja junto com o pai e as duas irmãs, ninguém acreditou que aquela
coisinha esmirrada e desquarada de antes fosse essa moça bonita, em
plena florescência. Ninguém prestou atenção na missa, nem o padre, que
várias vezes esqueceu o diabo da reza.
Dali em diante
ninguém mais se referiu a ela pelo nome da santa, apesar de que agora
sim é que ornava. Diziam: – Sabe a filha bonita do Cadinho?, e
emendavam o comentário. A guria tomou gosto pela vida. Só queria saber
de música, de estudo e de banho de mar. Vivia com o ouvido grudado no
rádio ou deitada, estudando livro e revista.
Quis porque quis
estudar na cidade – fazer supletivo, dizia –, apesar da lonjura. O pai
não gostou nada da novidade, mas já tinha se acostumado a dizer sim para
a filha, temeroso que aquele fosse o seu último desejo. O perigo tinha
passado, mas a barda não.
– Pois foi ele
dexá e a guria se perdê. Depois do tali do supletivo, ela
incasquetô de fazê facudade. E mulhé lá precisa disso, me diz?
– Pra ela não tê que voltá de ônibus tarde da noite, o pai alugô um
apartamentinho de quarto-e-sala perto da Úfisqui. – Foi o
que bastô, quirida. O sucesso subiu pra cabeça! – Isso já vai pra
mais de nove ano. Hoje é raro ela aparecê por aqui, mas quando vem, vem
de automóvi, vestida na útima moda. – No começo ela chegava toda
simpática, cheia de brinco e de pulsera, vinha fazê visita de colo
feito, ia entrando, pedindo a bença, contando lorota, mas depois ela
comprendeu que eu não engulo falsidade, aí disistiu. Comigo é assim,
minha filha: pão, pão, quêjo, quêjo. Não tem essa de pão di quêjo, nem
pão com quêjo.
– O Cadinho e as
filha juro que ela virô adevogada, que tem uma banca de adevogacia lá na
cidade. Diz que tá ganhando muito dinhero numa firma e que qué porque
qué que o pai apare de trabalhá na venda e vá morá co’ela mais as ermã.
– Até onde eu sei,
quem tem banca é pexero, que tem banca de pexe. Adevogado tem é
escritoro.
– Eu conheço uma
pessoa, que eu não posso dizê quem que é – só digo que é parente dela –
que conhece tudo da vida dela e diz, co’a mão tapando o canto da boca,
que sabe em quê que ela é dotora. Tu não ispalha, que se o pobre do
Cadinho sonha, cai duro do coração.
– Uma filha que deu
tanto trabalho, devia de tê mais consideração.
– Não diz pra ninguém
que fui eu que te contei, que eu não gosto de me metê na vida dos outro
– tu sabes –, mas me contaro que um dia o pai estranhô as bucica
acuando, foi vê e pegô ela atrás da venda, de safadeza com um vendedô de
mercadoria, e que mandô ela imbora com o tali do cara, e que ele passô
ela na cara enquanto teve vontade e adispôs largô ela na rua da
amargura, que é lá que é lugá de sem-vergonha. Foi aí que ela foi pará
na zona, cheia de doença, de onde o tali do velho tirô ela pra cuidá
dele no fim da vida – cortá os cabelo dos ovido, cortá as unha do pé,
lembrá ele de tomá os remédio, essas coisa – em troca de ficá co’a casa
e o patrimônio.
– Pelo que eu sei, ela tinha vinte e cinco
ano quando casô com o velho de papel passado, mas já tava com ele desde
os vinte, quando se perdeu. Por ela não precisava casá, mas ele
insistiu, sabia que não durava muito, quiria deixá ela amparada.
– Foi assim que ela
inricô!
(31 de março/2007)
CooJornal
no 522