07/07/2007
Ano 10 - Número 523

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno



Metamorfose

Traça. S. f. 1. Designação comum aos insetos tisanuros, especialmente os da família dos lepismatídeos, cujas espécies Acrotelsa collaris (Frab.) e Clenolepisma ciliata (Duf.) são comuns no Rio de Janeiro. 2. A rigor, as larvas de lepidópteros, quase todas de origem européia, atacam roupas de lã, tapetes, artigos de crina, peles e chifres. 3. A espécie Tineola biselliela Humm., caseira, (...) produz mais estragos. (Dicionário Aurélio) 

Traça. S. f. Nome de mulher. Grande dama. Mulher incomum de Nossa Senhora do Desterro. (Linguajar ilhéu)

Estávamos eu e a minha mãe subindo a escadaria da Catedral quando a vi pela primeira vez. Eu tinha uns cinco anos, e ao meu olhar de menina aquilo era uma visão. No alto da escadaria, uma mulher trajando um longo vestido branco de tecido esvoaçante, corpinho ajustado e saia rodada. Usava um chapéu branco adornado de flores e, nas mãos enluvadas, uma bolsinha e uma sombrinha branca, feminina, igualmente enfeitada de flores, que ela carregava deitada no braço esquerdo. Nos pés, um sapatinho delicado de salto alto. Lembro que era alta e magra e tinha a cintura fina.

Descendo as escadas com elegância, veio em nossa direção. Cumprimentou minha mãe com um meneio da cabeça e a mim com um olhar intenso e um meio sorriso. Fiquei paralisada, olhando para ela. Lembro a minha mãe me puxando pela mão, constrangida com a minha indiscrição, afinal, não olhar diretamente é uma regra elementar de boa educação. – Anda menina, olha pra frente!. Em pleno 1960 uma mulher do século XIX, ali, diante dos meus extasiados olhos, e minha mãe querendo que eu olhasse para frente! Quis saber tudo sobre ela.

A almãe contou que ela era uma verdadeira dama, fina, “culta” como se dizia, que tocava piano, falava francês e tivera uma vida de luxo e conforto. Fora casada com um comandante da Marinha, que viajava constantemente para o Rio de Janeiro e até para o estrangeiro. Apaixonada, ela costumava esperá-lo no cais do Arataca nos retornos dessas viagens. Era uma espécie de liturgia amorosa que ela cumpria religiosamente.

Um belo dia, à espera, ela estranhou a falta da silhueta garbosa do seu comandante a acenar-lhe da proa do navio, na entrada do Estreito. Ainda mais estranha era aquela bandeira a meio mastro. Ela acorreu saudosa e ensimesmada, e foi aí, exatamente aí, que o tempo parou. O navio trazia o corpo morto do seu amado. Desde então, muitos anos se passaram, mas ela permaneceu lá, naquele dia, à espera do navio do comandante.

Esses, agora, eram novos tempos, feitos de grandes conquistas tecnológicas; já não se viajava mais de navio, os ricos iam de avião, muito mais rápido, e os pobres iam de ônibus, ou a pé, como sempre, os automóveis tornavam-se populares, o meu pai tinha um, o que, de certa maneira, nos tornava ricos numa família de comerciários e funcionários públicos, gente muito simples, descendentes de pescadores e operários.  

O homem preparava-se para ir à Lua, muitas casas agora tinham geladeira, fogão a gás e enceradeira, um luxo! Os homens vestiam camisas Volta ao Mundo e calças de Nycron“senta-levanta, não perde o vinco”, dizia a propaganda. As mulheres elegantes usavam meias de Nylon, blusa com casaquinho de Ban-lon e colar de pérolas como as americanas que elas viam no cinema. A Europa deixara, a muito, de ser a referência em moda e cultura; agora só interessava o que fosse “moderno”, e moderno era tudo o que vinha da América do Norte, meca da inovação, da tecnologia e do cinema.

O mundo mudara irreversivelmente, mas ela permaneceu lá, aprisionada naquele dia, naqueles vestidos, nos chapéus e na sombrinha que usava para manter a tez clara, como convém a uma dama.

À exemplo das suas roupas ela foi envelhecendo, por isso todos a chamavam de Traça, pois, como as larvas de lepidópteros, ela também gostava de roupas velhas. Usava muito rouge e muito batom, mas, ao meu olhar encantado, não era caricata; era um personagem de um mundo de sonho, uma mulher do passado que por descuido atravessara um umbral no tempo e aqui ficara, seqüestrada, sem saber como voltar. Era encantada, surreal. Tenho a sua imagem tatuada, vívida, na retina.

Sobre a Traça existem muitas controvérsias. Soube, de fonte segura, que o nome dela era Lídia e que era conhecida como a Lídia do Tenório. Alguns dizem que o tal Tenório era o seu pai, outros que era o seu marido. Dizem também que foi uma moça muito bonita e que teve uma educação requintada, apropriada para a dama que ela certamente seria um dia.

Não teve escola, mas sim uma governanta francesa que lhe ensinou as letras e as prendas – bordado, costura, canto, noções de elegância e também as regras de etiqueta social. Não se pode garantir se tocava piano, mas é certo que falava francês. Parece que, nesse tempo, morava com a família lá para as bandas da Prainha.

A dona Maria do Carmo, uma senhora muito distinta, me disse que, segundo lhe consta, essa moça se casou com um oficial do Exército, não com um comandante da Marinha, e que foi morar fora, não se sabe onde. Desconhece-se o que aconteceu.

Fala-se à boca pequena em maus-tratos do tal militar e em traição, mas isso é coisa sem confirmação. O que se sabe é que quando voltou já veio louca. Andava em andrajos e dormia sob as marquises, no vão das lojas do Mercado. Dizem que alguns homens abusavam dela, mas que ela nunca perdeu a dignidade; indignos eram eles.

Não perdia a missa das dez na Catedral, rezada em latim, onde, com voz afinada, reprisava as lições da sua governanta, cantando em francês. Em seu mundo caótico, era cartesiana em algumas referências: selecionava as suas roupas de acordo com o calendário litúrgico da Igreja Católica, seguindo a cor dos paramentos do Monsenhor. Assim, vestia-se de roxo na Quaresma e na Procissão do Senhor dos Passos; de branco no Domingo de Páscoa e de verde nos domingos comuns. Na Sexta-feira Santa vestia-se de preto dos pés à cabeça e, em sinal de dor, cobria o rosto com um véu preto.

Certa vez, a dona Maria do Carmo ainda era mocinha, ela e as suas irmãs estavam na Catedral assistindo a uma celebração quando a Traça chegou. Pediu licença – ela sempre pedia licença, dizia bom-dia ou boa-tarde, e agradecia tudo o que lhe davam ou faziam por ela – e sentou-se ao lado delas. Tinha um cheiro desagradável, resultado da falta de higiene associada ao perfume barato. Tirou da bolsa um rosário e tentou principiar a reza, mas atrapalhou-se porque o terço estava quebrado e todo enleado. Então uma das moças lhe pediu o rosário e, desfazendo o emaranhado, refez o elo e o devolveu. Ela perguntou: – Qual é a sua graça? A moça respondeu: – Isabel. Ela, elegante que era, respondeu agradecida: – Obrigada, Isabel.

Há quem afirme que um homem misterioso, de uma família tradicional, apiedando-se dela passou a lhe custear as refeições e um quarto para dormir num daqueles hotéis baratos da Conselheiro Mafra. Parece que também teria lhe conseguido uma pensão junto às Forças Armadas, por conta da viuvez. (Eu, que adoro um romance, já conjecturo que isso é coisa de antigo apaixonado apiedado do seu infortúnio).

Outros dizem que ela tinha um filho, também militar, que morava no Rio de Janeiro e que era ele quem lhe mandava o dinheiro. O que se sabe é que de seu ela não tinha nada a não ser duas malas velhas, uma com os seus vestidos encantados e a outra cheia de bonecos quebrados. Desconfia-se que a sua família seja oriunda do Saco dos Limões e que teria tido uma irmã de nome Melânia. O resto ou é mistério ou fantasia.

Todo mundo sabe que aquele que conta um conto, aumenta um ponto; por isso é bem possível que muito do que eu te contei não seja jiguali ao sucedido, mas uma coisa eu te juro: é escarradinho o que me foi relatado e o que eu acho que vi.

No caso da Traça, eu não posso garantir nada, que eu era muito pequena e também tem quem me ache meio aluada. Tu podes acreditar no que quiseres, mas eu gosto mais da história que a minha mãe me contou. À descrição da figura decrépita e decadente, eu prefiro preservar aquela imagem belíssima que o meu olhar de criança registrou no alto da escadaria da Catedral. E o faço propositadamente, como uma forma de homenagem e em respeito à dona Lídia, pois, certamente, era assim que ela se via: como uma dama. E é o que ela efetivamente era: uma grande dama que, um dia, eu tive o privilégio e a honra de conhecer.

E agora me diz, em que outro lugar do mundo isso podia suceder? Só nesta aldeia, meu filho, só nessa aldeia!

 


                                                                                      

(07 de abril/2007)
CooJornal no 523


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com