05/05/2007
Ano 10 - Número 527

ARQUIVO
NORMA BRUNO

 

Norma Bruno



Que venha, então, a Vida!

Quando tinha quinze anos me pus a fazer uma auto-avaliação baseada no poema Receita de Mulher do Vinícius. Desolada, percebi que atendia a poucas exigências do mestre (quando se é jovem essas coisas nos atingem dramaticamente). Hoje lembrei disso e, por curiosidade, reli o poema. Foi muito engraçado.

Decididamente nunca terei as extremidades magras apreciadas pelo poeta - não sou nenhuma sílfide -; continua gravíssimo o problema das saboneteiras, e aquilo que antes era só uma hipótese de barriguinha, afinal se confirmou. Os membros não terminam como hastes, mas o certo volume de coxas foi preservado, assim como a tal cintura semovente, o que já merece uma comemoração.

O pescoço longo eu vou ficar devendo, mas os olhos permanecem irremediavelmente perdidos pra lá do invisível muro da paixão, e sempre resta a possibilidade da maldade inocente. Dependendo da inspiração, é possível até providenciar as tão desejadas queimaduras de primeiro grau, já que a temperatura interna foi conservada, segundo depoimentos.

O latifúndio dorsal por ora está garantido e eu diria que os seios são hoje algo assim como uma releitura pós-moderna do estilo greco-romano, incorporados alguns elementos do barroco, estilo do qual, diga-se de passagem, tem quem goste. Em compensação – glória suprema – conquistei a atitude mental dos altos píncaros, algo que, certamente, não possuía aos quinze anos. 

Estou mais para musa de Renoir, é verdade; mas, para ser sincera, eu nem acho graça nesse povo despossuído de carnes que precisa caminhar trançando as pernas para manter o equilíbrio. Sou uma mulher cujo corpo abrigou, pariu e amamentou três filhos e me orgulho disso; não abriria mão da maternidade em nome da estética. Esse é um bom corpo, gosto dele; é saudável, forte e sensível, lamento apenas tê-lo negligenciado durante tanto tempo.

Creio que ainda dá tempo; tenho, se tudo correr de acordo com as minhas projeções, pelo menos mais vinte anos de prazo de validade. A partir daí, qualquer acréscimo será lucro, estarei vivendo de lambujem e, a rigor, terei me tornado um erro estatístico; não importa.

Quero ter uma vida longa, mas não a qualquer preço. Negocio de bom grado tempo por intensidade. Prefiro uma vida plena ao tempo indeterminado. Considero uma bênção poder dizer como Pablo Neruda e Zaza Gabor (não sei quem copiou quem) em seu epitáfio: Confesso que vivi”. Eu, pessoalmente, acrescentaria um ponto de exclamação, fica muito mais bonito: – Confesso que vivi! Só quem foi feliz, apesar das vicissitudes, ousaria essa confissão.

Pois bem: a menos que os deuses tenham outros planos, vou fazer que nem a Vó de Laguna, amar e viver até o finzinho. Tudo ficará bem. É bem verdade que o corpinho está meio malhado pelo tempo, mas, em compensação, o espírito está com tudo em cima. Estou ficando cada dia mais antiga, mas sou jeitosinha, acho que vou ser uma velha bem do bonitinha.

Enquanto não está na hora da partida, vivo da Poesia que ainda resta. De minha parte, estou pronta. Que venha, então, a Vida!

 


(05 de maio/2007)
CooJornal no 527


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com