Quando tinha quinze anos me pus a fazer uma
auto-avaliação baseada no poema Receita de Mulher do Vinícius. Desolada,
percebi que atendia a poucas exigências do mestre (quando se é jovem
essas coisas nos atingem dramaticamente). Hoje lembrei disso e, por
curiosidade, reli o poema. Foi muito engraçado.
Decididamente nunca terei as extremidades magras
apreciadas pelo poeta - não sou nenhuma sílfide -; continua
gravíssimo o problema das saboneteiras, e aquilo que antes
era só uma hipótese de barriguinha, afinal se confirmou. Os
membros não terminam como hastes, mas o certo volume de coxas
foi preservado, assim como a tal cintura semovente, o que
já merece uma comemoração.
O pescoço longo eu vou ficar devendo, mas os
olhos permanecem irremediavelmente perdidos pra lá do invisível
muro da paixão, e sempre resta a possibilidade da maldade
inocente. Dependendo da inspiração, é possível até providenciar as
tão desejadas queimaduras de primeiro grau, já que
a temperatura interna foi conservada, segundo depoimentos.
O latifúndio dorsal por ora está garantido e
eu diria que os seios são hoje algo assim como uma releitura
pós-moderna do estilo greco-romano, incorporados alguns elementos
do barroco, estilo do qual, diga-se de passagem, tem quem goste.
Em compensação – glória suprema – conquistei a atitude mental dos
altos píncaros, algo que, certamente, não possuía aos quinze
anos.
Estou mais para musa de Renoir, é verdade; mas, para
ser sincera, eu nem acho graça nesse povo despossuído de carnes que
precisa caminhar trançando as pernas para manter o equilíbrio. Sou uma
mulher cujo corpo abrigou, pariu e amamentou três filhos e me orgulho
disso; não abriria mão da maternidade em nome da estética. Esse é um bom
corpo, gosto dele; é saudável, forte e sensível, lamento apenas tê-lo
negligenciado durante tanto tempo.
Creio que ainda dá tempo; tenho, se tudo correr de
acordo com as minhas projeções, pelo menos mais vinte anos de prazo de
validade. A partir daí, qualquer acréscimo será lucro, estarei vivendo
de lambujem e, a rigor, terei me tornado um erro estatístico; não
importa.
Quero ter uma vida longa, mas não a qualquer preço.
Negocio de bom grado tempo por intensidade. Prefiro uma vida plena ao
tempo indeterminado. Considero uma bênção poder dizer como Pablo Neruda
e Zaza Gabor (não sei quem copiou quem) em seu epitáfio: “–
Confesso que vivi”. Eu, pessoalmente, acrescentaria um ponto de
exclamação, fica muito mais bonito: – Confesso que vivi! Só quem
foi feliz, apesar das vicissitudes, ousaria essa confissão.
Pois bem: a menos que os deuses tenham outros planos,
vou fazer que nem a Vó de Laguna, amar e viver até o finzinho. Tudo
ficará bem. É bem verdade que o corpinho está meio malhado pelo tempo,
mas, em compensação, o espírito está com tudo em cima. Estou ficando
cada dia mais antiga, mas sou jeitosinha, acho que vou ser uma velha bem
do bonitinha.
Enquanto não está na hora da partida, vivo da Poesia
que ainda resta. De minha parte, estou pronta. Que venha, então, a Vida!
(05 de maio/2007)
CooJornal
no 527