12/05/2007
Ano 10 - Número 528

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NORMA BRUNO

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Norma Bruno



Hortaliças, frutas e... livros


Onde é que já se viu, livros misturados com tomates e cebolas!”, resmungou, ensimesmada, a mulher que caminhava ao meu lado. Ouvi a frase ontem pela manhã  enquanto me dirigia à Feira de Rua do Livro que acontece por estes dias no Largo da Alfândega.

Para chegar às tendas da Feira é preciso mesmo caminhar entre barracas de hortaliças, legumes e frutas, queijos de “colono”, cilindros de mortadela, pés e costelas de porco, potes de mel e doces caseiros, broas de milho e de coco, roscas de polvilho. Seguindo por esse caminho, chega-se às barracas de flores e, de repente, estamos diante dos livros. Milhares deles, de todas as cores e tamanhos, versando sobre todos os temas, para todas as idades e gostos, mas principalmente, o que, aliás, é o propósito dessas feiras, livros a preços baixos, alguns a “preço de banana”. Vi, com alegria, duas meninas, somando, junto com a mãe, suas moedas e trocados para levarem dois livrinhos infantis. Eram pessoas bastante simples, do tipo que, talvez, não freqüentem livrarias.

A princípio, pode mesmo parecer inadequado vender em feiras-livres, esse objeto quase sagrado, inacessível para a maioria nesse país de iletrados; mas eu penso que não há melhor lugar para vender livros do que em meio a legumes e hortaliças, frutas e flores. Inúmeras seriam as justificativas, mas, basta pensar, parodiando o Milton Nascimento, que o livro “tem de ir aonde o povo está”, e o povo está nas feiras, comprando tomates, batatas e pés de alface.

Feiras de livros são um deleite para os amantes da leitura, mas, quando acontecem em ambientes fechados, atingem, previsivelmente, uma clientela já cativa de “consumidores” de livros. Estas adquirem, ainda que a intenção seja outra, uma aura de “clube” que intimida os não iniciados, para quem adentrar um ambiente desses pode ser tão constrangedor quanto para a maioria de nós, seria entrar numa joalheria de luxo, “só pra dar uma olhadinha”.

As feiras de rua, pela sua simplicidade e localização, ao contrário, não intimidam os passantes e as pessoas não habituadas a comprar livros, exatamente porque os disponibiliza entre as coisas baratas e corriqueiras como réstias de alho, maços de salsinha e pastéis de carne. É preciso desmitificar o livro como coisa de intelectuais, aqueles “homens cheios da gramática”, qualificação que recentemente ouvi de um pescador da Lagoa da Conceição. Livro não pode ser privilégio. E, enquanto não se tornar um direito, continuaremos a ser um país de iletrados.

É preciso, mais que incentivar, promover a leitura, por isso vejo com satisfação livros expostos em gôndolas de supermercados, bancas de jornal e feiras. Livro precisa ser barato e estar ao alcance das mãos, para que sejamos tentados a “pegar e levar para casa”. Mais que isso, cada bairro precisa ter a sua biblioteca, ainda que seja pequena, ainda que esteja instalada nos fundos de uma garagem ou de uma barbearia, como se viu dia desses no jornal .

Súbito me ocorre que os livros deveriam ter cheiro. Cheiro de café recém coado, cheiro de melado, de pão saído do forno, cheiro de abacaxi ou de manga madura, cheiro de bolo de milho ou de chocolate. Ou, quem sabe, cheiro de flor, de rosas e cravos, para aguçar nossos sentidos – visão, tato e olfato - e por impulso, nos fazer mudar de rumo até chegarmos a uma barraca repleta de livros dos mais diversos “sabores”, perguntando: “Estes, quanto custam? Pode embrulhar, vou levar os dois”.

Haverá o dia em que vender livros em meio a abóboras, tomates e cebolas deixará de causar estranheza; mas isso só acontecerá quando tivermos chegado à conclusão de que livros, como hortaliças e frutas, são “gênero de primeiríssima necessidade”.

Publicado no Jornal A Notícia de SC em 14 de Maio de 2005



(12 de maio/2007)
CooJornal no 528


Norma Bruno
graduada em História e escritora
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com