“Onde é que já se viu, livros misturados com tomates e
cebolas!”, resmungou, ensimesmada, a mulher que caminhava ao meu
lado. Ouvi a frase ontem pela manhã enquanto me dirigia à Feira de Rua
do Livro que acontece por estes dias no Largo da Alfândega.
Para chegar às tendas da Feira é preciso mesmo caminhar
entre barracas de hortaliças, legumes e frutas, queijos de “colono”,
cilindros de mortadela, pés e costelas de porco, potes de mel e doces
caseiros, broas de milho e de coco, roscas de polvilho. Seguindo por
esse caminho, chega-se às barracas de flores e, de repente, estamos
diante dos livros. Milhares deles, de todas as cores e tamanhos,
versando sobre todos os temas, para todas as idades e gostos, mas
principalmente, o que, aliás, é o propósito dessas feiras, livros a
preços baixos, alguns a “preço de banana”. Vi, com alegria, duas
meninas, somando, junto com a mãe, suas moedas e trocados para levarem
dois livrinhos infantis. Eram pessoas bastante simples, do tipo que,
talvez, não freqüentem livrarias.
A princípio, pode
mesmo parecer inadequado vender em feiras-livres, esse objeto quase
sagrado, inacessível para a maioria nesse país de iletrados; mas eu
penso que não há melhor lugar para vender livros do que em meio a
legumes e hortaliças, frutas e flores. Inúmeras seriam as
justificativas, mas, basta pensar, parodiando o Milton Nascimento, que o
livro “tem de ir aonde o povo está”, e o povo está nas feiras,
comprando tomates, batatas e pés de alface.
Feiras de livros são
um deleite para os amantes da leitura, mas, quando acontecem em
ambientes fechados, atingem, previsivelmente, uma clientela já cativa de
“consumidores” de livros. Estas adquirem, ainda que a intenção seja
outra, uma aura de “clube” que intimida os não iniciados, para quem
adentrar um ambiente desses pode ser tão constrangedor quanto para a
maioria de nós, seria entrar numa joalheria de luxo, “só pra dar uma
olhadinha”.
As feiras de rua, pela
sua simplicidade e localização, ao contrário, não intimidam os passantes
e as pessoas não habituadas a comprar livros, exatamente porque os
disponibiliza entre as coisas baratas e corriqueiras como réstias de
alho, maços de salsinha e pastéis de carne. É preciso desmitificar o
livro como coisa de intelectuais, aqueles “homens cheios da gramática”,
qualificação que recentemente ouvi de um pescador da Lagoa da Conceição.
Livro não pode ser privilégio. E, enquanto não se tornar um direito,
continuaremos a ser um país de iletrados.
É preciso, mais que incentivar, promover a leitura, por
isso vejo com satisfação livros expostos em gôndolas de supermercados,
bancas de jornal e feiras. Livro precisa ser barato e estar ao alcance
das mãos, para que sejamos tentados a “pegar e levar para casa”. Mais
que isso, cada bairro precisa ter a sua biblioteca, ainda que seja
pequena, ainda que esteja instalada nos fundos de uma garagem ou de uma
barbearia, como se viu dia desses no jornal .
Súbito me ocorre que
os livros deveriam ter cheiro. Cheiro de café recém coado, cheiro de
melado, de pão saído do forno, cheiro de abacaxi ou de manga madura,
cheiro de bolo de milho ou de chocolate. Ou, quem sabe, cheiro de flor,
de rosas e cravos, para aguçar nossos sentidos – visão, tato e olfato -
e por impulso, nos fazer mudar de rumo até chegarmos a uma barraca
repleta de livros dos mais diversos “sabores”, perguntando: “Estes,
quanto custam? Pode embrulhar, vou levar os dois”.
Haverá o dia em que
vender livros em meio a abóboras, tomates e cebolas deixará de causar
estranheza; mas isso só acontecerá quando tivermos chegado à conclusão
de que livros, como hortaliças e frutas, são “gênero de primeiríssima
necessidade”.
Publicado no Jornal
A Notícia de SC em 14 de Maio de 2005
(12 de maio/2007)
CooJornal
no 528