Ao contrário dos que
imaginam Deus como um velho rabugento e mau-humorado, sempre penso em
Nosso Senhor como um Sujeito de bem com a vida, por isso espero Nele
como quem confia num pai bondoso que sabe o que é melhor para os seus
filhos e me coloco sob o manto da Providência Divina. Não esmoreço, sigo
confiante, ciente de que ao fim e ao cabo poucas coisas são realmente
importantes.
Por conta disso
desenvolvi o que considero – sem falsa modéstia - uma grande qualidade:
mesmo nos momentos mais difíceis rio de mim mesma e faço piada com as
minhas mazelas. É espontâneo. E como sou íntima de Deus, faço piada com
Ele também; se alguém me adverte de que isso é pecado, eu dou de ombros,
afinal quem inventou o riso?
A confiança é tanta
que me dou ao luxo de cometer até alguns impropérios. Vou dar um
exemplo: certo dia, passando por um momento especialmente difícil, o
coração angustiado, meu espírito se prostrou em oração. Naquele momento,
lembrei: “_ Não precisamos nos preocupar, Deus nos conhece pelo nome”.
Na época eu estava escrevendo um livro sobre o Presépio, então repeti as
palavras de Nossa Senhora diante do Anjo da Anunciação: “_ Senhor,
fazei em mim segundo a Vossa Vontade!, só que retorqui em seguida:
Mas vê se capricha! Caí imediatamente no riso. Acho que Deus riu
também...
De uns dias para cá
ando desconfiando de que Ele é, na verdade, um grande gozador, isso sim.
Tudo por conta de um bem-te-vi que mora numa árvore na esquina do meu
prédio (quem me conhece sabe o quanto gosto dos bem-te-vis).
Pois o dito é gago!
Gago! Nunca tinha visto, ou melhor, ouvido, um passarinho gago. Ele
canta assim: “Ben... ben... ben...” e fica, fica, fica... Muito tempo
depois desembesta - “...teví”! – bem alto. Aí tenta de novo:
“...Ben...Ben...Ben...” e empaca. De repente: “...teví!” Eu morro de
rir! O pior é que eu já fico rindo antes, esperando a nova investida:
“Ben... Ben... Ben..” Agora mesmo, enquanto escrevo, o faço a rir,
lembrando o pobre passarinho.
Coisa feia, Deus,
debochando do pobre bichinho! E não só dele: alguém já reparou na cara
esquisita do tamanduá? E nas orelhas do elefante? - e o que é aquela
tromba? – E o jeitão da minhoca? E a cara da anta? E o andar da foca? E
o leão-marinho então? E o ornitorrinco? – ainda por cima, Deus
caprichou no nome da criatura -, e o bicho-preguiça? E o rinoceronte? E
o pescoço da girafa? E a arraia? E o tubarão-martelo? Decididamente o
mundo não é feito apenas de criaturas altivas como o Rei das Selvas ou o
gracioso cavalo-marinho. Em algum momento da Criação Deus deve ter se
empolgado e, cá pra nós, o resultado não foi dos melhores.
Pois vou lhes
confessar uma coisa: Deus aprontou comigo também. Sou uma mulher
pequena, totalmente fora dos padrões, mas me rio disso. Costumo dizer
que fui feita no sexto dia da Criação, na hora exata do lusco-fusco.
Imagino a cena: Deus já dava por encerrado o expediente quando viu, no
fundo do Divino tacho, uma pequena pelota de barro. Ciente da
necessidade de preservar os recursos naturais pensou, pensou... E
decidiu: “_ Vou fazer uma mulher!” E fez “eu”! Um metro e
quarenta e nove e meio de puro valor agregado, design arrojado, tipo
compacto, sem desperdício!
Só de vingança
resolvi me tornar uma grande mulher. Mas tem hora que cansa. Às vezes
penso até em desistir. Cheguei à conclusão de que essa p... dá um
trabalho!
(02 de junho/2007)
CooJornal
no 531