02/06/2007
Ano 11 - Número 531

ARQUIVO
NORMA BRUNO



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Norma Bruno



O Riso Bom de Deus


Ao contrário dos que imaginam Deus como um velho rabugento e mau-humorado, sempre penso em Nosso Senhor como um Sujeito de bem com a vida, por isso espero Nele como quem confia num pai bondoso que sabe o que é melhor para os seus filhos e me coloco sob o manto da Providência Divina. Não esmoreço, sigo confiante, ciente de que ao fim e ao cabo poucas coisas são realmente importantes.  

Por conta disso desenvolvi o que considero – sem falsa modéstia - uma grande qualidade: mesmo nos momentos mais difíceis rio de mim mesma e faço piada com as minhas mazelas. É espontâneo. E como sou íntima de Deus, faço piada com Ele também; se alguém me adverte de que isso é pecado, eu dou de ombros, afinal quem inventou o riso?

A confiança é tanta que me dou ao luxo de cometer até alguns impropérios. Vou dar um exemplo: certo dia, passando por um momento especialmente difícil, o coração angustiado, meu espírito se prostrou em oração. Naquele momento, lembrei: “_ Não precisamos nos preocupar, Deus nos conhece pelo nome”. Na época eu estava escrevendo um livro sobre o Presépio, então repeti as palavras de Nossa Senhora diante do Anjo da Anunciação: “_ Senhor, fazei em mim segundo a Vossa Vontade!, só que retorqui em seguida: Mas vê se capricha! Caí imediatamente no riso. Acho que Deus riu também...

De uns dias para cá ando desconfiando de que Ele é, na verdade, um grande gozador, isso sim. Tudo por conta de um bem-te-vi que mora numa árvore na esquina do meu prédio (quem me conhece sabe o quanto gosto dos bem-te-vis).

Pois o dito é gago! Gago! Nunca tinha visto, ou melhor, ouvido, um passarinho gago. Ele canta assim: “Ben... ben... ben...” e fica, fica, fica... Muito tempo depois desembesta - “...teví”! – bem alto. Aí tenta de novo: “...Ben...Ben...Ben...” e empaca. De repente: “...teví!”  Eu morro de rir! O pior é que eu já fico rindo antes, esperando a nova investida: “Ben... Ben... Ben..” Agora mesmo, enquanto escrevo, o faço a rir, lembrando o pobre passarinho.

Coisa feia, Deus, debochando do pobre bichinho! E não só dele: alguém já reparou na cara esquisita do tamanduá? E nas orelhas do elefante? - e o que é aquela tromba? – E o jeitão da minhoca? E a cara da anta? E o andar da foca? E o leão-marinho então? E o ornitorrinco?  – ainda por cima, Deus caprichou no nome da criatura -, e o bicho-preguiça? E o rinoceronte? E o pescoço da girafa? E a arraia? E o tubarão-martelo? Decididamente o mundo não é feito apenas de criaturas altivas como o Rei das Selvas ou o gracioso cavalo-marinho. Em algum momento da Criação Deus deve ter se empolgado e, cá pra nós, o resultado não foi dos melhores.

Pois vou lhes confessar uma coisa: Deus aprontou comigo também. Sou uma mulher pequena, totalmente fora dos padrões, mas me rio disso. Costumo dizer que fui feita no sexto dia da Criação, na hora exata do lusco-fusco.  Imagino a cena: Deus já dava por encerrado o expediente quando viu, no fundo do Divino tacho, uma pequena pelota de barro. Ciente da necessidade de preservar os recursos naturais pensou, pensou... E decidiu: “_ Vou fazer uma mulher!” E fez “eu”! Um metro e quarenta e nove e meio de puro valor agregado, design arrojado, tipo compacto, sem desperdício!

Só de vingança resolvi me tornar uma grande mulher. Mas tem hora que cansa. Às vezes penso até em desistir. Cheguei à conclusão de que essa p... dá um trabalho!



(02 de junho/2007)
CooJornal no 531


Norma Bruno
graduada em História, escritora e jornaleira
Florianópolis, SC
norma.bruno@hotmail.com