14/11/2008
Ano 12 - Número 607


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Minha pouco glamourosa vida

 

Gosto de rotinas por isso as tenho desde a hora de levantar até a hora de ir dormir. Facilita, desenrola, descomplica. Deixo as surpresas para o fim de semana quando tudo rola mais solto, mas no dia a dia, eu levo a sério a minha "tediosa" vida.

Não gosto de arroubos e grandes mudanças. Provocam-me palpitações. Prefiro a quietude das horas.

Vão achar que tenho medo de viver... e concordo com vocês. Não me incomodo com isso. Já houve um tempo que me chateava por não acompanhar as mudanças do mundo. Hoje, me acomodei. Faço meu próprio tempo. Deixei de correr atrás. Vou na frente, com calma. Sou dona do meu nariz.

Para ter essa tranqüilidade rotineira, tive que abdicar de outras tantas coisas. Ser zen requer certas atitudes que, a princípio, incomodam quem não está acostumado.

Vou pouco aos shoppings, viajo menos ainda. Minha vida é resumida à casa, família, poucos amigos, internet. Isso é o que quero.

Não me faz falta o que não quero.

No entanto, tenho que superar as cobranças externas de sempre ter mais, estar na moda, ter o último carro, a bolsa e o sapato da hora, roupas de grife, decoração feita pelo decorador do momento, ter personal trainer, personal style, fazer análise, dieta, mechas, escova progressiva, fazer blefaroplastia, lifting, ser eternamente jovem... enfim, satisfazer a sociedade em que se está inserido e ficar igual a todos para não destoar. Uniformizar, despersonalizar, ficar tudo igual a todo mundo.

Ter tranqüilidade e paz requer certos esforços e ouvidos moucos aos fuxicos de fora, fazer vista grossa aos atropelos do progresso e só utilizar aquilo que se necessita.

Tão pouco precisamos para levar a vida!

Essa correria que os tempos modernos nos obrigam a entrar, é uma roda-viva que nos pega de surpresa e acabamos entrando sem nos darmos conta. Quando percebemos, estamos no esquema, tentando ser mais e mais ricos, mais e mais belos, mais e mais poderosos. É difícil parar e descer do trem em alta velocidade. Eu já desci e estou em câmera lenta há algum tempo. Quem quiser ficar comigo tem que se adaptar. Meus dias são sem glamour, mas tranqüilos e profícuos. É o que me interessa.



(14 de novembro/2008)
CooJornal no 607


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br

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