03/06/2006
Ano 9 - Número 479


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Panelas & Poesia

 

Ando com pouco tempo para ficar na rede e acabo ficando com preguiça de escrever. Marido sempre ao redor porque se recupera (ainda) da cirurgia da coluna, querendo atenção, querendo comida diferente, chamego, bolsa de água quente, cafuné... E eu me desdobro em duas, três, quatro... ou quantas forem necessárias.

E os meus textos ficam me pedindo para serem mais que idéias! O que eu posso fazer se as mão andam ocupadas com outras coisas sem glamour, tais como lavar-passar-cozinhar-limpar?

Não há escrita que se salve em meio aos pratos e panelas do dia-a-dia. Os versos ficam murchos e acabam perdendo o significado diante do animado espanador e do aspirador em frenética correria.

Há que se ter um pouquinho de infelicidade para o escrever ser mais poético. Há que se ter mais lágrimas e menos sorrisos para que os versos sejam mais consistentes. E eu ando sorrindo à toa. Estou feliz mesmo entre as roupas do varal.
Tenho o almoço para preparar e tempero de salada não vai bem com as minhas rimas e assim fico com os dedos plenos de poesias querendo ser. Minha brastemp trabalha o dia inteiro sem reclamar, mas eu não consigo. Não sou máquina!

Preciso de espaço para desenhar os contornos da minha poesia. Preciso de tempo para colocar as palavras em folhas brancas de espanto.

Enquanto não me deixar envolver pela mágica da escrita, não conseguirei dormir pois meus versos estão à espreita, querendo ser amanhecer.

Nesse meio tempo, finjo ser dona-de-casa-assumida, mas ansiosa por trocar o aspirador pelo teclado do computador e deixar de lavar panelas e ver nascer a rima ou a imagem que deleita a minha alma. Quero ser poeta em tempo integral! Poeta e feliz...
 


(03 de junho/2006)
CooJornal no 479


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC