Minha filha Samanta mora num aconchegante
apartamento do quinto andar que se abre para um lindo quintal da
vizinhança. É assim no lado Norte e também no Oeste. Nestes tempos de
concreto, ter qualquer pedaço de verde a colorir as vistas é um
privilégio. Ela tem muita sorte de morar num cantinho assim.
O quintal é grande, bem cuidado, com canteiros de morangos, de alface,
de alfazema e de ervas várias. Tem jabuticabas, laranjas, bergamotas,
goiabas... e tem, também, um galinheiro com várias espécies de
galinhas. E tem o galo, namorador, posudo e cantador. E aí é que
reside a reclamação da minha filha e do meu genro.
O galo começa a cantar às cinco horas da manhã e, com certeza, todos
no prédio já sabem: são cinco horas! Mas quem, na cidade, levanta
neste horário?
Quando ela me fala do tal galo, querendo vê-lo na panela para calar o
bico, digo-lhe que ela é uma felizarda por ter um relógio tão certeiro
à disposição... e de graça! E depois, continuo eu, é uma sorte vocês
terem um pouco de natureza debaixo de suas janelas. Vejam isso como
uma coisa boa. O galo só faz a parte dele neste mundo cheio das
obrigações. Façam vocês a parte que lhes cabe: admirar a sintonia da
natureza que, apesar do crescimento da cidade, ainda reserva tempo
para mostrar sua exuberância.
Pelo sim, pelo não, minha filha passou a escutar o galo-despertador
com novos ouvidos. Agora ela sabe que terá mais algum tempo para
dormir depois do primeiro cócóricó do seu vizinho.