10/06/2006
Ano 9 - Número 480

 


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Um galo despertador

 

Minha filha Samanta mora num aconchegante apartamento do quinto andar que se abre para um lindo quintal da vizinhança. É assim no lado Norte e também no Oeste. Nestes tempos de concreto, ter qualquer pedaço de verde a colorir as vistas é um privilégio. Ela tem muita sorte de morar num cantinho assim.

O quintal é grande, bem cuidado, com canteiros de morangos, de alface, de alfazema e de ervas várias. Tem jabuticabas, laranjas, bergamotas, goiabas... e tem, também, um galinheiro com várias espécies de galinhas. E tem o galo, namorador, posudo e cantador. E aí é que reside a reclamação da minha filha e do meu genro.

O galo começa a cantar às cinco horas da manhã e, com certeza, todos no prédio já sabem: são cinco horas! Mas quem, na cidade, levanta neste horário?

Quando ela me fala do tal galo, querendo vê-lo na panela para calar o bico, digo-lhe que ela é uma felizarda por ter um relógio tão certeiro à disposição... e de graça! E depois, continuo eu, é uma sorte vocês terem um pouco de natureza debaixo de suas janelas. Vejam isso como uma coisa boa. O galo só faz a parte dele neste mundo cheio das obrigações. Façam vocês a parte que lhes cabe: admirar a sintonia da natureza que, apesar do crescimento da cidade, ainda reserva tempo para mostrar sua exuberância.

Pelo sim, pelo não, minha filha passou a escutar o galo-despertador com novos ouvidos. Agora ela sabe que terá mais algum tempo para dormir depois do primeiro cócóricó do seu vizinho.
 


(10 de junho/2006)
CooJornal no 480


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC