
01/07/2006
Ano 9 -
Número 483

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Odete
Ronchi Baltazar
A menina dos livros
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Minha paixão pelos livros vem da infância, quando o que tínhamos para ler
era somente a cartilha da escola. Lia e relia a cartilha o tempo todo.
Tanto li que decorei certas lições.
Mais ou menos por essa época (idos anos 60), as Irmãs Paulinas iam de casa
em casa vender livros e eu me lembro que a minha mãe comprou-me um que
tinha como título "O pequeno Henrique". Para minha irmã comprou "A cega de
Sorrento". Por muitos anos esses foram os nossos únicos tesouros que se
juntaram a outros, recebidos ao fim do ano como prêmio de primeiro lugar
na turma. Lembro dos títulos "Os dois cavalinhos" e "O prisioneiro da
montanha" de Fidélis Dalcin Barbosa.
Depois vieram as enciclopédias que eu amava de paixão e folheava sem
parar... E mais tarde, na adolescência, pude participar da Biblioteca das
Moças, onde podíamos pegar emprestados um livro por vez, a cada semana.
Como a minha irmã também pegava um, acabávamos lendo dois livros por
semana porque nos revezámos com a leitura.
Nesta época li todos os grandes romances do cristianismo, as Mulherzinhas
de Louisa May Alcott e tantos outros que nem lembro mais... Anotava todos
os títulos que lia em uma lista que acabei perdendo depois...
Como era difícil adquirirmos os livros, íamos emprestando de um ou de
outro.
Lembro que costumava freqüentar assiduamente a biblioteca do colégio das
freiras, o MTM, de Criciúma, onde eu fazia o Colégio Normal. Chegava cedo
unicamente para desfrutar de uns minutos de tranqüilidade a sós com os
amados livros. Qualquer horário vago eu ia para lá, para o meu refúgio.
Agora que ficou mais fácil a compra de livros, fico embevecida, quase em
transe hipnótico quando entro em uma livraria. Fico em estado de euforia e
acabo levando muitos e muitos livros. E me deleito a folheá-los e a
cheirá-los com carinho.
Na minha cabeceira tenho vários livros que leio toda noite. Gosto de
manuseá-los, escrever neles, anotar nas páginas, marcar como se fora um
sinal. Meus livros são verdadeiros diários. Contam segredos.
Os livros da Cecília, por exemplo, têm anotações em quase todas as páginas
e as datas sucedem-se, mas os sentimentos permanecem porque eternos como a
palavra impressa.
E uma outra coisa: adoro reler os livros. Uma, duas, três vezes. Têm
livros que estão na casa de praia e que releio a cada verão. Não me cansam
e a cada leitura descubro novos elementos.
Livros de poesia são um caso à parte, pois fazem parte de mim. Vão comigo
por onde eu vou. Amo cada página, cada poema, cada verso, cada palavra. E
todos estão marcados, assinalados para sempre.
Nem me importo com os críticos que dizem que preciso cuidar do livro e não
escrever neles... E desde quando escrever no livro é algum ultraje?
O livro é meu e eu o amo com meus sinais e minhas marcas. Eu dobro a
página, faço orelha, escrevo e vivo cada página.
Eu me transformo com o livro e o livro muda comigo . Somos seres em
mutação. Um livro sem marcas é um objeto sem vida. Os meus falam através
de cada marca que fiz.
O que dirão meus netos quando lerem os livros de sua avó, cheios de
anotações que contam seus segredos?
(01 de julho/2006)
CooJornal
no 483
Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br
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