
08/07/2006
Ano 9 -
Número 484

ARQUIVO
ODETE R. BALTAZAR
- A menina dos livros
- Bom dia todo dia
- Ghost writer
- Mentira ou verdade?
- Panelas e poesias
- PVT
- Um galo despertador
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Odete
Ronchi Baltazar
Ghost writer *
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Quando estava no Colégio Normal, lá pelos idos anos 70, eu me sobressaía
na sala de aula por ser estudiosa e tirar notas excelentes. Era uma CDF
assumida e era procurada pelas colegas para ajudá-las nas tarefas,
trabalhos ou provas.
Tinha uma colega, vizinha de carteira, a Dora, que tirava o máximo de
proveito da minha boa vontade: colava nas provas, estava sempre na minha
equipe e pegava minhas tarefas todos os dias para copiar. Nem se dava ao
trabalho de disfarçar sua preguiça de estudar.
Dora tinha um namorado que já estava na Capital (Florianópolis) fazendo o
curso de Direito. Ele era uns cinco ou seis anos mais velho que ela, que
tinha dezessete, assim como eu.
Eles se correspondiam como apaixonados que eram e um dia ela me mostrou
uma das cartas e a resposta que estava escrevendo, pedindo-me auxílio para
a elaboração da carta. A desculpa era que não escrevia muito bem, enquanto
ele era excelente na escrita.
Ajudei-a com muito gosto. Fiquei até envaidecida em ser considerada uma
boa "escritora" de cartas.
Na semana seguinte, Dora me traz outra carta do namorado e me confidencia
que está sem assunto para escrever a carta em resposta. Pede-me para ler o
que o namorado escreveu e dar uma idéia do que ela deve responder.
Lá fui eu, de novo, escrever a carta para o namorado dela.
Escrevi como se o namorado fosse meu e eu a namorada amada, esperando pelo
amado, longe, na capital. Era um amor só! Empolguei-me, senti-me a própria
namorada, e escrevi muitas páginas em papel de carta de seda. Ficou uma
carta longa, amorosa, cheia de saudade e de carinho.
Dora adorou e o namorado dela, amou!
Na outra semana, Dora recebeu outra carta e me mostrou toda entusiasmada.
O namorado tinha estranhado a maneira dela escrever e ficara se
perguntando de onde ela tirara tanto assunto na carta anterior, mas estava
feliz por vê-la tão alegre e romântica.
Dora, já sem nenhum pudor, pede-me que responda a carta no lugar dela. E
começa ali, um período curioso da minha vida em que fui a namorada
apaixonada sem nunca ter sido. Eu escrevia com prazer e já estava gostando
daquela fantasia. Escrevia longas cartas que Dora, muitas vezes, dividia
em duas para dar mais assunto ao namorado.
Sentia-me poderosa, tendo as palavras como varinha mágica que fazia aquele
amor florescer. O amor era de Dora ou era meu?
Minhas eram as fantasias. De Dora, o namorado, com o qual se casou depois
da formatura do curso normal. E eu? Nem fui convidada para o casamento...
Nunca ele soube da escrevinhadora das suas cartas. Não sei se desconfiou
de algo. Nunca eu soube. Nem sei se estão felizes. Devem estar. Espero que
estejam. Eu estou feliz e de consciência tranqüila. Sei que sou uma
criadora de ilusões.
*O ghost writer, é uma espécie de revisor e re-escritor das coisas
alheias. Forneça-lhe informações básicas e algumas pistas de como deseja o
seu texto e ele o entrega pronto. Seja este texto um discurso, uma
dissertação, um panfleto publicitário, ou qualquer outro.
(08 de julho/2006)
CooJornal
no 484
Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br
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