
15/07/2006
Ano 9 -
Número 485

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Odete
Ronchi Baltazar
Muito além do meu
jardim
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Há vinte anos o bairro onde moro, em Florianópolis, tinha o triplo de
vegetação de hoje que, por conta das novas construções, acabam sendo
substituídas por espaços limpos, higiênicos e sem natureza alguma. Ninguém
quer dispensar os cuidados que um jardim ou pomar requerem. Ninguém quer
ver folhas pelo terreiro. Então acabam com tudo que possa ter o tom de
verde e a cidade inteira vai se tornando cinza.
Sou apenas uma anônima defensora da natureza e seus benefícios. E nem sei
se adianta fazer propaganda disto neste mundo interesseiro e frio, mas amo
o verde-natureza.
O meu jardim-quintal é uma grande área em volta da casa. Tem árvores
enormes e com uma certa idade, que vou podando conforme a necessidade mas
que, na maior parte do tempo, são deixadas à vontade para crescerem
livres. No inverno, as que ficam no jardim da frente, ficam peladinhas e
as folhas secas são em grande quantidade, por isso precisa de um
jardineiro pelo menos três vezes por semana.
Na primavera, o jardim de trás fica forrado com as folhas do jambolão (jamelão,
baguaçu) e sua nuvem de flores. Em janeiro, são os seus frutos que colorem
tudo de roxo.
Minhas árvores são intocáveis e vez por outra acabo tendo um bate-boca com
os vizinhos que reclamam da sombra, das folhas secas, dos frutos...
Não corto, não sacrifico. Quando muito, permito uma poda para evitar
maiores confusões. E assim, vivo rodeada de verde, de pássaros,
borboletas, abelhas, cigarras, gambás, gatos e cães.
Plantei árvores frutíferas em pleno jardim e assim sempre tenho alguma
frutinha pra beliscar. São araçás, cortiças, cerejas, caquis, pitangas,
bananas, ameixas, lichias, mamão, acerola, cambucá, goiaba, laranjas,
jabuticabas, anonas, tucum, carambolas, abacates...
E tem as flores. Em cada época florescem diferentes espécies. As flores
dos cinamomos perfumam o jardim no início da primavera. Os jasmins
(gardênias), abrem-se em branco perfume no verão. As flores dos mamoeiros
são uma delícia. As das laranjeiras têm perfume de anjos. As do
ipê-amarelo são ouro no gramado.
Chamamos carinhosamente este nosso canto de "Paraíso" pois é aqui que nos
rendemos ao sossego e aos afazeres da vida doméstica com tranqüilidade.
Enquanto eu viver, manterei este recanto em verdes e flores e acredito que
será o oásis deste mundo feito de concreto e asfalto.
E a natureza me acolhe: conto os pássaros da minha janela e dou bom dia à
rolinha que escolheu o tucunzeiro em frente ao meu quarto para morar,
colho flores e perfumo a casa. E enquanto escrevo, os bem-te-vis gritam
faceiros ao redor do ninho, o sabiá chama sua companheira para o namoro, o
sinhaçu belisca o mamão e os canarinhos brincam nos beirados.
Tem cenário mais perfeito?
(15 de julho/2006)
CooJornal
no 485
Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br
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