22/07/2006
Ano 9 - Número 486

 


 

 

Odete Ronchi Baltazar



De médico, poeta e louco...
 

 

Depois de pensar sobre as minhas manias ou o TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), cheguei à conclusão que o meu poema "Das rotinas" é uma referência ( embora inconsciente) a esse meu transtorno.

Das rotinas

Gosto de reler livros,
rever filmes,
repetir atos,
comer sempre o mesmo prato.
Sou inteira rotina,
estrada conhecida,
passos já dados,
durmo sempre do mesmo lado.
Na mesmice,
reconheço o palco
enceno a peça
acerto o tempo,
repito a lida,
sem erros,
tudo cronometrado.
Encerro a fita,
sem surpresas,
sem nada atrasado.
Assim sigo a mesma,
imutável.
Sem glórias,
sem lama,
sem fama,
dona do meu próprio aplauso.
(do livro "Só Poesia")


Essa repetição de gestos e afazeres tomam parte do meu tempo e, muitas vezes, impedem-me de levar a minha vida normalmente. Mas tenho de reconhecer: já melhorei muito desde que comecei a fazer a psicoterapia. O meu analista e a medicação que tomo têm me ajudado bastante.

Já consigo, por exemplo, tomar meu banho sem faxinar o banheiro antes, ou comer sem limpar a cozinha primeiro.

Estão rindo do quê? É sério! Essas pequenas atitudes repetitivas incomodam demais ao ponto de atrasar a vida da gente. Já pensaram no tempo que tenho que dispensar para cada ritual desses?

Sou dada a rotinas e rituais e enquanto isso não atrapalhar a minha vida, tudo bem, diz o meu analista. A partir do momento em que começam a ser empecilhos mais que auxílio, aí o bicho pega!

Vou dar um exemplo onde meus atos repetitivo são inócuos: antes de dormir eu preciso fazer o ritual que consiste em ajeitar os travesseiros (que são quatro só para mim), pegar o meu "cheruco" (uma pequena almofadinha para apoiar a cabeça), pegar o copo de água, a gotinha de desentupir nariz, o creme das mãos e pés, o livro para ler antes do sono chegar, lápis e papel para anotar os poemas que insistem em ser escritos... Tudo isso depois de já ter fechado as portas e as persianas que possam me incomodar com a luz e ligado o ventilador para fazer o zumbido monótono que embalará meus sono. Tudo pronto? Só então me ajeito para ler e dormir. Enquanto não fizer (todos os dias!) essas pequenas "coisinhas", nem tento dormir, pois não fico quieta. Levantarei cem vezes se for preciso até deixar tudo como quero.

Enquanto esse ritual-rotina não me atrasar ou não afetar meus outros comportamentos, dá para continuar fazendo tudo bonitinho. A partir do momento em que começa a alterar meus afazeres e eu ficar perturbada com ele, aí então terá que ser tratado como transtorno.

De uns anos para cá, depois da terapia, aprendi a conviver com essas minhas manias e diminuí o tempo que gastava com todos os meus "rituais".

Já não me acho tão doida, pois sei que há muitos mais como eu. Aqui, penso que cabe bem aquele ditado que diz: "de médico, poeta e louco, todo mundo tem um pouco", e embora eu ache que não seja tão pouco assim no meu caso, digo uma coisa a vocês: consigo ser feliz mesmo sendo deste jeito estranho de ser.



(22 de julho/2006)
CooJornal no 486


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br