
29/07/2006
Ano 9 -
Número 487

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Odete
Ronchi Baltazar
Liberando a memória
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Fui no meu terapeuta ontem. Há mil anos faço terapia com ele. Já conhece
as minhas rugas todas e os meus dodóis. Seria da família, não fosse o
pagamento a cada fim de sessão. Pois é, fui reclamar que estava com sono
demais e não conseguia ficar na net com o olho aberto. Durmo bem à
noite, faço uma soneca à tarde, mas ando que nem zumbi, procurando um
lugar para me encostar.
É claro que ele logo sacou tudo. É que andei com visitas. Primeiro meus
pais, depois minha sogra. Gosto de todos, mas encarar parentes diretaço
assim, cansa qualquer um. E eu com fobia social!
Reclamei da minha senilidade precoce. Ando trocando nomes, esquecendo
coisas, dando branco total e nem usei Omo! Reclamo que tudo deve ser por
causa dos eletrochoques (ECT) que recebi há alguns anos atrás e ele, mui
pacientemente, pede-me que seja menos exigente comigo mesma, que é
normal uma perda gradativa de memória e que eu não me estresse com isso.
Devo continuar com meus afazeres cibernéticos, meus escritos, meus
estudos literários que é uma forma de manter os neurônios ativos.
Atividade cerebral é ginástica para a cabeça. Ainda bem que não preciso
fazer o outro tipo de ginástica. Morreria desmemoriada de tanta
preguiça.
Mas já que neurônio precisa de exercícios, vamos lá! Muita leitura,
palavras-cruzadas, escrevinhar e escrevinhar. Por isso escrevo tanto. E
quando pinta esquecimento, Dicionário e Gramática nele!
Tenho meus métodos para não esquecer das coisas. Arquivo tudo e estou
sempre na ativa. Seleciono o que quero guardar na memória, pois que ando
com pouco espaço e tenho de ser seletiva.
Aniversários? Só guardo as datas dos mais chegados. Telefones? Tenho
agendas e lembretes no mural. Nomes? Dos amigos queridos não se esquece
jamais. Poesias? Hoje não se declama mais. Lê-se em voz alta.
Então, seleciona daqui e dali e consigo trabalhar com as palavras. Só
não me perguntem o nome daquele artista da novela das oito. Aquele que
já trabalhou na novela anterior...com aquela atriz da novela das sete,
que tem o cabelo curto, mas que tinha o cabelo comprido naquela novela
das seis... Pois é. Esqueci... Só lembro do que me interessa.
(29 de julho/2006)
CooJornal
no 487
Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br
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