26/08/2006
Ano 10 - Número 491


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Memória em quadrinhos

 

Quando eu era menina, já adolescendo, adorava ir na casa dos meus avós. Levávamos uns quarenta minutos para chegar lá... a pé.

A casa da nona ficava no meio de uma imensa pastagem e era lá que brincávamos com os primos ou tios.

Eu tenho um tio que é mais ou menos da minha idade, o Vilson, que fazia coleção de revistinhas do Tio Patinhas, Pato Donald, Mickey e Zé Carioca. Ele comprava todas, inclusive os Almanaques, que eram as mesmas revistinhas, só que mais rechonchudas, recheadas de histórias.

Todo esse tesouro era guardado como devia: dentro de uma grande mala velha, com cadeado, debaixo da cama, no quarto dele, onde eu não entrava por respeito à privacidade.

Não lembro exatamente em que momento ele deu permissão a mim e à minha irmã, de lermos as revistinhas. Lembro somente da emoção e do frisson que eu sentia quando ele arrastava aquela mala até a varanda e a abria, deixando livre seus tesouros. Eu não via mais nada, sentada no chão, embevecida com a leitura. Mergulhava num transe profundo e não via o passar das horas. E depois, prêmio dos prêmios, ele permitia que levássemos alguns exemplares para que continuássemos a leitura em casa. Eu adorava esse ritual de contar as revistinhas para saber quantas estávamos levando, pois antevia o prazer de tê-las para ler e reler com calma no silêncio do meu quarto.

Até hoje, sinto o cheirinho daquelas pequenas revistas que me fascinavam e me divertiam tanto. A cor, a textura, o formato, tudo era absorvido e me marcava indelevelmente. Começava aí a minha paixão por histórias em quadrinhos pois pelos livros eu já era apaixonada desde que comecei a ler.

Acho que devo ao meu tio Vilson o meu fascínio por bancas de revistas.



(26 de agosto/2006)
CooJornal no 491


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br