09/09/2006
Ano 10 - Número 493


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Prosa da Semana

 

"Ah, se certas coisas pudessem voltar..."
(Cecília Meireles)

Quando eu era pequena, nas férias, passávamos a maior parte do tempo com os primos. Não se viajava. Estávamos sempre juntos com os parentes e amigos da rua. Na época de inverno, tempo das laranjas, íamos nas nonas para chupá-las diretamente dos pés e ainda trazíamos bolsadas para casa. Na época do verão, íamos buscar melado e açúcar grosso nos Maccarinis. Era muito longe e íamos a pé com garrafas para colocar o melado.

Tinha a época de colher vassouras no mato, que não lembro se era verão ou inverno. A gente ia em turma de primos e amigos: Rosa, Natalina, Aládio, Pico, Tela, Iva, Miri, Toninho, Tite, Nené, Bertino, Lurdes, Zoraide e eu... Lembro que também era longe e que tínhamos que passar pelo Buiú, o rio que cortava as terras do seu João Bonfante, já poluído naquela época pelos detritos do carvão. As águas eram escuras, quase pretas.

A gente ia fazendo muita folia, aprontando todo tipo de brincadeiras e me recordo de uma em especial. Pegávamos as folhas de coqueiro e nos balançávamos em volta dele, tipo Tarzan. A adrenalina da brincadeira ficava por conta do Buiú (o rio, lembram?), pois o coqueiro ficava no barranco do rio e no impulso que dávamos, parte do "vôo" era por cima do Buiú! Se a gente caísse, iria se afogar, com toda certeza, pois as águas eram profundas e com correnteza. Mas quem disse que criança tem juízo?

Em acordo mútuo, ninguém nem contava para os pais. É claro que se eles soubessem proibiriam todos de andar por aquelas bandas.

Quando voltávamos, trazíamos os braços carregados de um arbusto que servia para fazer vassouras para varrer os terreiros e quintais que sempre eram muito grandes naqueles tempos. E ainda trazíamos, tucum, araçás, mexericos (uma frutinha bem pequenina e roxa), laranjas, maranto (outra frutinha roxa que usávamos para colorir as unhas).

Vínhamos carregados e cansados, esperando tomar o café da tarde com muito cavaquinho, pão de casa, queijo, salame e, se tivéssemos sorte, umas fatias de polenta fria.

Sentávamos na mesa assim mesmo, sem tomar banho, quando muito com as mãos lavadas, e nos nutríamos daquela energia que somente em família podemos ter.

Minha infância foi tão intensa que vivi por mil e mais mil viveria se me fosse dado escolher.



(09 de setembro/2006)
CooJornal no 493


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br