14/10/2006
Ano 10 - Número 498


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Dia de faxina

 Aqui em casa é dia de faxina nas quintas-feiras. Vocês devem bem saber o que é isso: roupa até os olhos na área de serviço (ou lavanderia para os mais sofisticados), colchões de pernas pro ar, banheiros de molho em água sanitária, varandas molhadas com mangueira, janelas escancaradas para entrar o sol, para sair a sujeira e entrar energia renovada.

Neste dia, não se tem onde colocar os pés, literalmente. Até a Polla, uma das minhas cadelas fica tão perturbada com o alvoroço que entra em casa e se esconde em um canto mais tranqüilo, no caso, os meus pés, debaixo da bancada do computador. Os gatos, agitados em princípio, logo se animam e ficam se divertindo, entrando e saindo dos buracos que não ficam tão à mostra na rotina dos dias, como gavetas, armários abertos, debaixo dos colchões (que estão de pernas pro ar, lembram?).

Quantas vezes ficaram trancados em armários em dia de faxina? Difícil contar. É que eles gostam tanto desses esconderijos-novidades que acabam dormindo por lá. Como a faxineira não se dá conta, fecha os armários ou gavetas com os gatos dentro. Depois, é um tal de procurar os bichanos... Mas sempre são encontrados belos e formosos.

Em dia de faxina, marido não põe o pé em casa. Almoça na rua, em qualquer lugar de sua preferência, que marido algum gosta dessas revirias todas. Para mim, é uma tranqüilidade. Pelo menos neste dia, deixo de me preocupar com o almoço. Come-se qualquer coisa, comprada no buffet vizinho e que normalmente não se compra porque a família toda reclama da má qualidade da comida. Dia de faxina não se escolhe o cardápio. Engole-se. Por mim, ficava sem almoço, mas tem a faxineira que precisa se alimentar, e bem.

Mas tem uma coisa boa, maravilhosa, excelente, dadivosa neste dia de faxina. Além da renovação das energias, do cheirinho de casa limpa, dos novos ares, é neste dia que consigo ficar, sem ser interrompida, durante mais tempo no computador e escrever. Por isso estou aqui, escrevendo, enquanto a casa é revirada do avesso e movimentada nos mais recônditos cantinhos.

Essa troca de energia me faz bem e faz bem a todos. Evita alergias, gripes. Dá um chega pra lá em qualquer baixo astral. E sabem de uma coisa? Desde os tempos de criança que eu adoro essa bagunça organizada dos dias de limpeza geral. Dá uma nova vitalidade, como se tudo começasse do zero ao final do dia.

Descobri que dia de faxina faz bem à alma também. E agora, está me fazendo um bem maior ainda, já que posso escrever pra vocês.

Bom dia de faxina pra mim!


(14 de outubro/2006)
CooJornal no 498


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br