
21/10/2006
Ano 10 -
Número 499

ARQUIVO ODETE BALTAZAR
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Odete
Ronchi Baltazar
Cine
Guarani
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O Cine Guarani foi um dos
personagens da minha infância e adolescência. Era da família. O
proprietário era meu tio, então, desde muito pequena, com os privilégios
de sobrinha, já assistia a filmes, mesmo com censura dez anos. Alguns
eram filmes de terror que eu assistia assombrada, no colo da minha mãe.
O cinema era programa obrigatório nos finais de semana e ponto de
encontro dos namoradinhos da época. Aliás, o meu primeiro encontro com
meu primeiro namorado foi na matineé do domingo. Lá estávamos nós, no
escurinho do cinema e a película se desenrolando na tela. Era um filme
qualquer de guerra e eu não conseguia prestar atenção. Tinha mais o que
fazer, com tanta emoção rolando no meu coração. Lá pelas tantas, leio o
nome de uma das personagens do filme, Emília, e sussurro para ele: é o
nome da minha mãe! E ele retruca: o nome da minha também! Fiquei nas
nuvens e senti que era um sinal do céus. Deixei que ele pegasse na minha
mão sem culpas e saí do cinema na nuvens.
Assisti a todos os filmes do Tarzan com a Jane e a Chita, Mazzaropi e
suas estrepolias, os épicos de aventuras como Maciste com seus atores
sarados, Ben-Hur, Cleópatra, Sissi e suas românticas aventuras...
Marcelino, Pão e Vinho... Todos os de faroeste eu também vi. E toda
sexta-feira Santa, à tarde, era dia da Paixão de Cristo. Filas imensas
se formavam na bilheteria e muitos assistiam ao filme nos corredores, em
pé. Eu vi este filme muitas e muitas vezes e a cada cena triste, eu saía
dos bancos e ia para a frente do cinema, onde a minha tia tinha o
baleiro e ficava disfarçando até a cena passar. Aí, eu voltava e sentava
de novo. Quantas vezes eu fiz isto! Era só aparecer cena de pancadaria
ou de sangue que eu corria ao abrigo.
Meus primos é que passavam o filme junto com o meu tio. Era um orgulho
pra mim saber que eles estavam lá, na sala de projeção, controlando
tudo. Sentia-me poderosa e parte daquela magia.
O Cine Guarani enche-me de lembranças que passam como se fora uma sessão
de cinema. Abrem-se as enormes cortinas de brocado verde e me vejo em um
filme romântico, com direito a pipoca, cartucho americano e torradinho.
Vale a pena ver tudo de novo... Vale ter saudades em cinemascope
colorido. Vale ser feliz e sentir este momento mágico.
(21 de outubro/2006)
CooJornal
no 499
Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br
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