
04/11/2006
Ano 10 -
Número 501

ARQUIVO ODETE BALTAZAR
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Odete
Ronchi Baltazar
Nona Corina
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Nona Corina tinha
"problemas" nas duas pernas. Diziam que ela tinha ossos de vidro, pois
se partiam à toa. Usava uma cadeira de palha para se apoiar e se
locomover pela casa a passos de tartaruga. Ela era a segunda esposa do
meu bisavô materno, Estéfano, e morava com o primogênito deste, o Nono
Beppi.
Apesar de suas limitações, Nona Corina trabalhava o dia inteiro na
cozinha, enquanto todos iam para a roça ou trabalhar no armazém.
Cozinhava sentada na boca do fogão, lavava louças apoiada à pia, fazia
crochê e os remendos das roupas que usavam na lida do campo, sentada em
um banco ao lado da sua cama. E ainda fazia coroas. Coroas para os
mortos.
Eu me encantava com a rapidez com que ela criava as rosinhas de papel
crepon e ia colocando no arco de arame.
Eram tantas as cores! Brancas e azuis para os pequeninos e as virgens.
Lilazes para os adultos. A purpurina colocada nas beiradas das flores
deixavam meus olhos cintilantes.
Em vésperas de finados, o quarto dela virava atelier e aquilo tudo era
uma festa para a netarada (na verdade, bisnetarada).
Eu tinha uns cinco anos e gostava de ficar com ela enquanto minha mãe
tinha algum compromisso fora de casa. E eu tinha minhas razões.
Além de poder ficar na cama (altíssima) com ela, eu ainda podia ter uma
chupeta, que era proibida pelos meus pais, mas que a nona Corina me dava
na maior sem cerimônia. Eu ficava horas, ao lado dela em silêncio
enquanto ela rezava, sentada no seu banco ao lado da janela, de onde
avistava a rua quieta.
Eu ficava imaginando que ela rezava para os mortos de todas aquelas
coroas que fazia a cada ano. E eram muitos! Enquanto isso, eu cochilava,
embalada pelos murmúrios da oração.
Sua intimidade com a morte era tanta que mandou construir o seu túmulo
no cemitério da cidade. Essa coisa toda era bizarra demais para nós.
Para ela, uma simples precaução.
Ela demorou a usar seu lugar no cemitério. Partiu em dia de temporal e
muita chuva.
Eu já era moça e estava longe, na capital, fazendo faculdade.
Lamentei, mas não tive lágrimas para a Nona Corina. Apenas orações, como
ela fazia para seus mortos.
Ela devia estar feliz, andando com suas pernas sadias e fazendo flores,
muitas flores de papel crepon.
(04 de novembro/2006)
CooJornal
no 501
Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br
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