18/11/2006
Ano 10 - Número 503


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



O cozinhadinho

 


Algum de vocês já brincou de cozinhadinho? Aquela brincadeira de cozinhar em fogões improvisados de tijolos e uma chapa, no meio do mato ou atrás de casa, no quintal?

Pois eu brinquei muito de cozinhadinho no mato que tinha atrás de casa. Eu deveria ter uns oito anos e já sabia acender fogo.

As panelinhas eram de brinquedo e muito pequeninhas. O que se cozinhava não se podia comer, pois ficava uma nojeira.

Mas tinha também os "grandes cozinhadinhos". Nestes, sempre tinha alguém com mais idade para fazer um fogão de verdade e cozinhar pra valer. E nestes, a comida era para se comer mesmo! Que comida gostosa aquela com gosto de fumaça e aventura!

O preparo que antecedia o dia do cozinhadinho também era cheio de novidades: escolhia-se o local, que podia ser o pomar ou o quintal ou o mato atrás da casa de um dos participantes. Pedia-se permissão para a mãe e aí se preparava o terreno (literalmente).

Munidos de vassouras, limpava-se o lugar, montava-se o fogão e cada um trazia algo para o local: o arroz, o sal, as panelas, os pratos... Lenha tinha no local mesmo.

Montávamos o lugar como se fosse uma cozinha. A mesa era uma tábua qualquer, com tijolos servindo de suporte. Passávamos a semana toda arrumando o local e todos os dias era uma alegria ficar por lá depois da aula até o anoitecer.

Quando chegava a véspera do "grande cozinhadinho" (que era sempre aos domingos), ficávamos ansiosos e dando os últimos retoques ao local.

E chegado o grande dia, cedinho estávamos a postos no mato. Enquanto os maiores se encarregavam de preparar a comida, os menores brincavam nas árvores em volta ou iam catar frutinhas.

Lembro-me de um destes cozinhadinhos em especial. Na brincadeira de balanço de uma corda só, onde a gente ia bem alto e depois pulava no meio das folhas, a minha irmã acabou pulando em cima de uma amoreira. Saiu cheia de espinhos. Livrou-se de cair num poço bem fundo que tinha por perto. Ficou chateada o resto do dia, mas ninguém interrompia a brincadeira, não. Continuávamos empolgados durante o dia todo. No fim do dia, cada um levava para a sua casa o que havia trazido. As panelas voltavam enegrecidas e nós, cansados, felizes e completos.

O cheiro gostoso da comida misturada à fumaça fazia daquelas dias presentes caídos do céu na minha infância.

 


(18 de novembro/2006)
CooJornal no 503


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br