Algum de vocês já brincou de cozinhadinho? Aquela brincadeira
de cozinhar em fogões improvisados de tijolos e uma chapa, no meio do
mato ou atrás de casa, no quintal?
Pois eu brinquei muito de cozinhadinho no mato que tinha atrás de
casa. Eu deveria ter uns oito anos e já sabia acender fogo.
As panelinhas eram de brinquedo e muito pequeninhas. O que se
cozinhava não se podia comer, pois ficava uma nojeira.
Mas tinha também os "grandes cozinhadinhos". Nestes, sempre tinha
alguém com mais idade para fazer um fogão de verdade e cozinhar pra
valer. E nestes, a comida era para se comer mesmo! Que comida gostosa
aquela com gosto de fumaça e aventura!
O preparo que antecedia o dia do cozinhadinho também era cheio de
novidades: escolhia-se o local, que podia ser o pomar ou o quintal ou
o mato atrás da casa de um dos participantes. Pedia-se permissão para
a mãe e aí se preparava o terreno (literalmente).
Munidos de vassouras, limpava-se o lugar, montava-se o fogão e cada um
trazia algo para o local: o arroz, o sal, as panelas, os pratos...
Lenha tinha no local mesmo.
Montávamos o lugar como se fosse uma cozinha. A mesa era uma tábua
qualquer, com tijolos servindo de suporte. Passávamos a semana toda
arrumando o local e todos os dias era uma alegria ficar por lá depois
da aula até o anoitecer.
Quando chegava a véspera do "grande cozinhadinho" (que era sempre aos
domingos), ficávamos ansiosos e dando os últimos retoques ao local.
E chegado o grande dia, cedinho estávamos a postos no mato. Enquanto
os maiores se encarregavam de preparar a comida, os menores brincavam
nas árvores em volta ou iam catar frutinhas.
Lembro-me de um destes cozinhadinhos em especial. Na brincadeira de
balanço de uma corda só, onde a gente ia bem alto e depois pulava no
meio das folhas, a minha irmã acabou pulando em cima de uma amoreira.
Saiu cheia de espinhos. Livrou-se de cair num poço bem fundo que tinha
por perto. Ficou chateada o resto do dia, mas ninguém interrompia a
brincadeira, não. Continuávamos empolgados durante o dia todo. No fim
do dia, cada um levava para a sua casa o que havia trazido. As panelas
voltavam enegrecidas e nós, cansados, felizes e completos.
O cheiro gostoso da comida misturada à fumaça fazia daquelas dias
presentes caídos do céu na minha infância.