25/11/2006
Ano 10 - Número 504


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Gatomania


Minha relação de amor com os gatos começou na adolescência, pelo que me lembro.
Meu pai não queria ver os gatos em casa e cada vez que aparecia um gatinho e o adotávamos, ele os levava perder, sem remorso algum.

A cada gato desertado, um pouco mais de amor eu ia guardando para esses bichinhos. Nem me importava com cães, passarinhos, pintinhos, coelhinhos. Minha paixão era gatos!

Um dia, apareceu, lá em casa, uma gatinha prenha. Vira-lata pura. Dessas, metade parda, metade branca. Feiinha, pobrezinha...

Minha irmã e eu escondemos a Mima e enquanto ela estava sem os filhotes foi fácil.
Quando nasceram os viralatinhas, daí não teve outro jeito: tivemos que mostrar para o pai a recente aquisição. Ele concordou, meio sem graça de expulsar os filhotinhos de casa. Mas éramos proibidas de deixar a gatinha dormir dentro de casa com os filhotes. Não importava. Tínhamos um imenso porão, onde poderíamos abrigar centenas de gatos se quiséssemos, isto é, se nosso pai deixasse...

Quinze dias depois de nascerem os dois filhotes, a Mima foi atropelada. Eu vi a cena e aquele fato rendeu-me belas redações na escola, com direito a serem lidas em voz alta e a muito choro doído.

A casa onde morávamos ficava a poucos passos da rua que, sendo a principal, era movimentada.

Sei dizer que os nossos animais de estimação, quase todos, inclusive as galinhas, acabavam morrendo atropeladas.

Foi assim com a Mima, foi assim com um de seus filhotes poucos meses depois.

Muitos gatos tive depois desses, mas esses marcaram mais por terem sido o início desse amor pelos felinos em geral.

Quando casei, minha primeira providência foi adotar uma vira-latinha que chamamos de Bisteca. Enquanto moramos em apartamento, contive minha paixão, mas quando fui morar em uma casa com muito espaço em volta, não me segurei mais. Haja espaço para tanto amor!

Depois da Bisteca, vieram outros e mais outros e outras de todas as raças, tamanhos e padrões de pelagens. Eu amava cada um em particular, sofria por cada um que não conseguisse salvar porque, coisa horrorosa! meus gatos continuavam morrendo mesmo que eu fizesse de tudo para mantê-los vivos.

Teve uma época em que eu estava com trinta e um gatos em casa, tendo um gatil para acolhê-los, veterinário, comida, carinho, preocupação e... muita briga com meu marido.

Resolvemos, em comum acordo, que eu reduziria o número de gatos e que eu não acolheria mais gatos abandonados. Comecei, então, uma campanha no bairro, silenciosa mas eficaz. A todos eu falava bem dos gatos, explicava sobre as doenças, desmistificada certas crenças arraigadas, tipo: gato transmite asma, gato dá azar, coisas que só a ignorância sobre os felinos fazia crescer. Auxiliava quem precisasse de um curativo, fazia um parto, encaminhava ao veterinário, visitava os gatinhos doentes, aplicava injeções. Eu já era quase uma veterinária.

Hoje estou com dois gatos somente, embora no quintal eu tenha vários gatos de rua para alimentar. Não deixam mais filhotes no meu portão e conheço muita gente que passou a ter um gatinho e amar os bichanos por influência minha. Isso eu considero como uma grande conquista para minha campanha "ame os gatos como eu amo".

Já consigo ver um gatinho sem querer levá-lo para casa. Como me curei? Anos de análise, acho eu. Mas nem me tentem com um filhotinho, pois quem resiste a um gatinho pequeno?

 


(25 de novembro/2006)
CooJornal no 504


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br