Virasse para o lado e pudesse
esquecer as memórias que cismavam em vir para o jantar. Sentasse em
outro lugar na mesa para um e os fantasmas fossem embora sem se
despedir. Mirasse o espelho e aquela que espia saísse do gelo e a
substituísse... por certo teria um pouco da paz que só existe nas
fantasias das manhãs ensolaradas, no breakfast a dois, no que
rola depois do amor, na cama desarrumada, na preguiça de domingo...
Pusesse um pouco mais de açúcar no café e adoçaria os inviezados do
olhar, as palavras amargas, o não dito, o choro camuflado, o
carinho não tido.
Tivesse um tiquinho a mais de coragem e sairia com a roupa do corpo
para lugar indeterminado ou paragens desconhecidas em busca de si
mesma - aquela, a que a fitava de dentro do espelho, a verdadeira, a
legítima, a que não tinha dúvidas.
Tivesse a certeza, um pouco só, e estaria em risos sem a cabeça que
pesava toneladas que a deixava confusa nem bem o dia começava.
Tivesse decidido e estaria tudo clean, higiênico,
pasteurizado, homogeinizado sem contaminação de pensamentos
atrapalhados e impuros.
Estivesse em estado de insanidade e faria coisas assim como correr
pelada na chuva, beber caldo de cana no quiosque da beira da
estrada, comer pão com manteiga no bar da esquina, chamar o nome do
amado mesmo sem ele escutar, rezar de noite, dormir sem tomar
Dormonid, acalmar-se sem Valium, animar-se sem Prozac...
Ah, se
tivesse coragem e vivesse simplesmente!