Minha casa é cercada por altos muros, que a cada ano são aumentados em
altura, e acrescidos em número de fios de arame farpado.
Tenho cães, alarme, grades nas janelas. Vivo encarcerada, sempre com
as portas chaveadas. Medo de ser surpreendida por ladrões dentro de
casa, como aconteceu em fevereiro passado.
Tenho observado que lá fora dos meus muros as coisas não estão
diferentes. A cada dia, as grades ficam mais altas e pontiagudas,
colocam-se alarmes em tudo, cacos de vidro nos muros, cercas elétricas
em volta das residências onde os muros estão ficando mais altos que as
próprias casas. Estamos nos escondendo e nos enjaulando.
Tudo isso para nos protegermos dos ladrões que roubam com mais e mais
audácia, para nos protegermos dos bandidos que estão à solta e nos
seqüestram sem piedade, com a maior cara-de-pau.
Vai chegar um tempo em que não teremos mais liberdade para andarmos
nas ruas. Estaremos presos às jaulas e muralhas. Os bandidos estarão à
solta, livres para escolherem o próximo alvo. Este futuro, que há
tempos atrás parecia ficcional, está tão próximo que já é presente. É
agora!
Não consigo ver uma luz ao final desse túnel. Não consigo dar uma
sugestão para aliviar essa realidade. Não tenho idéias para reformar
este mundo cão.
O que vejo é a inversão de valores tomando conta do povo. Dá-se muita
importância ao ter, ao possuir, ao material e físico. Poucos estão
interessados em crescer. Mas muitos querem ser ricos e isso leva à
ambição desmedida. Todos querem enriquecer, e rapidamente! É a idéia
generalizada de que se o vizinho tem, eu posso também ter. Se não
consigo por meios honestos, vale tudo para conseguir. Até roubar,
enganar, corromper, violentar.
Este é um assunto que não tem fim, mas podemos debater e tentar achar
uma saída. Está aberta a temporada de caça.