A Rural do nono Jão era igualzinha a do comercial de "Seleções".
Metade amarela, metade bege. Era o máximo em condução no início dos
anos 60, essa Rural (pronunciado com o "r" bem brando, com a língua
bem solta. Nada de erre arrastado).
Descendente de italiano que se preze, troca a pronúncia dos erres
todos. Quando é brando, como no caso de 'areia', fala arrastado.
Quando é forte como no caso de 'rei', fala suave. Assim era a palavra
Rural. Coisa difícil de se pronunciar! A língua não obedecia.
A rural do nono servia a todos os filhos e netos já que, naqueles
tempos, nem todo mundo tinha carro, não. Então era um tal do nono
levar a gente para cá e para lá que nem se fala. E que emoção! Pena
que criança ia sempre atrás, na parte que ficava em cima dos pneus e
era duro pra danar, sacolejava que nem burro de carga. Mas só o fato
de estarmos na Rural do nono compensava tudo.
Lembro de uma vez que fomos em São Luis, no município de Imaruí, para
pagar uma promessa que a minha mãe tinha feito à Beata Albertina. Nós
morávamos em Rio Maina, distante uns 200km.
Fomos na rural do nono. Minha mãe ia com meu irmãozinho no colo, que
na época, deveria ter uns três meses. A minha irmã (com 5 anos) e eu
(com 7 anos) fomos atrás no balança-a-barriga-e-o-estômago.
Enquanto a estrada era sem muitas curvas, tudo foi bem. Mas quando
começamos a subir a serrinha cheia das reentrâncias e concavidades não
deu outra: vomitei tudo o que tinha e o que não tinha comido.
A cada quinze minutos, o nono era obrigado a parar por conta de meus
faniquitos. Eu desidratava por completo, pois logo começou a diarréia
por conta do nervosismo. Que situação!
Não lembro o que aconteceu com a minha irmã, pois estava tão envolvida
com meu enjôo que não conseguia concatenar uma simples idéia que
fosse.
Também não consigo lembrar de mais nada, pois meus neurônios devem ter
sumido de tanta desidratação!
A promessa foi paga, meu irmão ficou bom (ele tinha o fêmur deslocado)
e a rural do nono deixou de ser um grande atrativo. Pelo menos para
mim.
Depois dessa viagem não consigo andar em carros a não ser que seja no
banco da frente e não posso olhar para os lados, pois corro o risco de
expulsar o conteúdo do estômago.
Se tenho saudades da rural do nono? Tenho, sim. Saudades daquele tempo
tão quieto, onde tudo andava com mais calma, onde eu podia marcar cada
passo que era dado, guardar cada sorriso, cada lágrima, sem correr o
risco de ficar sem tempo. Tenho saudades, sim. Muitas! Saudades até da
rural do nono.