Acho que já perceberam que eu adoro falar da minha infância. É que eu
a vivi intensamente, por isso gosto de lembrar daqueles tempos. Muitas
e muitas vezes vocês lerão meus relatos, sempre com uma pontinha de
saudade.
Uma das coisas que eu mais gostava quando criança era do anoitecer.
Aquela hora depois de ter vindo da escola e já ter tirado o uniforme
da escola (blusa branca de fustão e saia azul-marinho de pregas) e
depois da janta, que na maioria das vezes era minestra com radiche,
queijo e salame.
Nesta época ainda não tínhamos televisão, então íamos todos para a
frente das casas, na rua, brincar de esconde-esconde, de pegar, de
passar anel, com os vizinhos e primos. Era uma alegria só!
Como corríamos pelas ruas, que nem calçamento tinha! E nós, descalços,
pés sujos e felizes...
As luzes dos postes eram fracas e o final da rua da oficina era um
breu, mas os mais corajosos se embrenhavam nele para se esconderem. Só
que não adiantava. A brincadeira parava porque os mais medrosos
(precavidos?) não iam até lá.
Nas escadas da padaria do tio Zidoro, ficávamos sentados contando
histórias de assombração e qualquer ruído sinistro que escutávamos,
era motivo para ficarmos cada vez mais pertinho um do outro. Aquela
proximidade fazia-nos cúmplices. E depois, suados e plenos, lavávamos
os pés, rostos e mãos nas gamelas e íamos dormir em colchões de
palhas, penas e sonhos, esperando o dia seguinte chegar para fazermos
tudo de novo.
As estrelas, mais brilhantes naquele tempo, são as mesmas que tento
encontrar no meu céu de hoje.