20/01/2007
Ano 10 - Número 512


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Porões
 

 

Onde eu morava, no Rio Maina, no tempo em que eu era criança, as casas todas tinham porão. Os americanos tinham sótão. Nós tínhamos porão. Não tinha aquele glamour todo, mas também servia de depósito das coisas velhas e/ou usadas. Era o lugar das ferramentas, das garrafas, da lenha, do que não se queria mais e daquilo que ainda iria servir para alguma coisa...

Era no meio desta tralha toda que brincávamos nas férias. No inverno porque era quentinho. No verão porque era fresquinho.

Houve um tempo em que ajeitamos, limpamos, organizamos todo o porão e a mãe levou todos os apetrechos de costura para lá. Assim, ficávamos fazendo as estripulias, enquanto ela costurava nossa vida, ponto a ponto.

Lembro do verão que eu e a minha irmã desenhamos muito, copiando e colorindo personagens dos gibis. Aprendemos a desenhá-los à mão livre. Também lembro de um outro verão que fizemos uma competição (minha irmã e eu) para ver quem decorava poesias mais rapidamente. Neste tempo eu estava no ginásio. Decorei poemas do Augusto dos Anjos, Camões... e que sei de cor até hoje!

Nas tardes de temporal, era só fechar o grande portão e a mãe nos fazia sentar em pneus. Dizia que era pra neutralizar qualquer raio que caísse por lá. Que trovoadas eram! Assustadoras. Rezávamos para Santa Bárbara que nos atendia em proteção todas as vezes...

Teve uma época (era início dos anos 70) que foi moda a Festinha Americana. Meninas levavam a comida, rapazes, as bebidas. Tempo do toca-discos portátil e dos LPs. A cada sábado, a festinha era na casa de um dos amigos. Imaginem onde foi a festa na minha casa?

No porão, é claro!

Foi feita uma faxina de alto a baixo (as aranhas mudaram de domicílio) e colamos figuras de revistas com frases pelas paredes. Meu toca-discos Phillips portátil e mais os discos emprestados foram parar numa mesinha no centro do porão e aquela noite foi um sucesso daqueles! O porão ficou cheio de jovens da vizinhança, dançando juntinho ou separado, tomando "samba", coca-cola, gasosa e caipirinha. Ninguém tomou pileque. Todos ficaram muito comportados. Afinal, meus pais estavam por lá, de olho.

Os porões da vizinhança eram muito parecidos com o da minha casa e estive em muitos deles para brincar ou dançar.

A infância da gente é sempre tão boa de se lembrar que tudo volta mais lindo. Como se estivesse todo o tempo embrulhada em papéis de seda e guardada em porões da memória. Como aqueles porões da minha infância: cheios de vozes, risadas e muito aconchego.


(20 de janeiro/2007)
CooJornal no 512


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br