27/01/2007
Ano 10 - Número 513


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Interneterapia
 

Quem me lê diariamente e me vê assim despachada, não sabe o quanto sou tímida. Não parece? Pois é... Sou muito tímida, mas disfarço bem. Minha maneira de esconder a timidez é falando (ou escrevendo) e gesticulando muito.

A net é um presente dos deuses para mim pois aqui posso falar escondidinha de todos(?)...

Tenho medo de aparecer em público e aqui, embora esteja com vocês todos aí, parece que estou sozinha. Então eu falo, falo, falo... ou melhor, escrevo, escrevo e escrevo compulsivamente. Aliás, sou compulsiva assumida. Mas este é assunto para outro dia. Não vamos misturar as coisas senão perco o fio da meada.

Deixem-me ver... Estava falando de timidez, esconder-se atrás de um monitor...

Uma amiga me disse, dias destes, que todo internauta é um solitário covarde porque vive se escondendo do mundo.

Mas não seria o contrário? Quem está aqui, expõe-se a todo instante. É claro que tem as várias formas de se deixar ver. Tem gente que é tão tímido que nem o nome verdadeiro dá. Outros são menos um tantinho, mas jamais mostram uma foto atualizada. E há aqueles que inventam uma identidade. Ou seja: são duas (ou mais) pessoas. Uma que mostram no dito mundo real e outra(s) que mostram no virtual. Cada um tem seus motivos. Existe todo o tipo de pessoa no mundo. Aqui, não é diferente.

Na verdade, aqui a gente se expõe mais pela necessidade de se fazer entender. Acabamos escrevendo muito além do que falaríamos ao vivo.

Temos que escrever "E u t e a m o" com todas as letras para que o outro saiba do nosso sentimento. Pessoalmente, você olharia nos olhos, ou faria um carinho, e estaria dizendo tudo.

Aqui precisamos escrever tim-tim-por-tim-tim para que o leitor nos entenda. Será que estou conseguindo me fazer compreender?

O que estou tentando dizer é que, timidez à parte, a net tem me servido muito bem. Consigo me comunicar sem medo, o que na vida real me deixaria ansiosa por demais. Não que eu tenha dificuldade de me comunicar. Não é isso. É que tenho minhas ansiedades, minhas fobias. Fico nervosa diante de muita gente. Não exponho meus sentimentos assim facilmente como faço por aqui.

Na net encontrei uma maneira de canalizar minha energia, meu potencial artístico sem que eu tenha medo de me expor. Acho que sei o que me atrai tanto. É a possibilidade de poder controlar a quem eu envio meus emails e a quem eu devo responder.

No fim, tudo seria uma questão de "controle"? Por certo é isso mesmo. Os medos são situações que fogem do nosso controle (Bingo! Achei a resposta!).

Eu sempre digo que escrever é minha maior terapia... Prova disto é que acabo saindo sempre melhor depois de cada escrito meu, (publicado ou somente para os arquivos, não importa). Sempre consegui fazer essa "terapia" através do que escrevo. Lembram do diário da adolescência? Pois é. Escrevi trocentos diários...

Como posso controlar a quem envio ou deixo de enviar o que escrevo por aqui, faço uma terapia diária e ao mesmo tempo exerço minha necessidade de controle.

Vocês acabam sendo meus terapeutas-não-remunerados pois faço "terapia diária".
Fiquei muito melhor depois que comecei a freqüentar esse espaço virtual. Estou mais calma e ao mesmo tempo menos medrosa. Estou quase corajosa.

A internet, eu descobri, é uma grande terapia em grupo.

 

(27 de janeiro/2007)
CooJornal no 513


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br