Quando fazemos uma promessa temos que
cumprir se não corremos o risco de perdermos o benefício. Pois é...
Eu prometi (a mim mesma) que escreveria um livro. Isso nos tempos de
escola do Rio Maina e do Colégio Madre Teresa Michel.
Como sempre me saía bem nas redações disseram que eu prometia.
Prometia o quê? Esperavam muito daquela
menina-super-estudiosa-e-comportada que até escrevia bem. E eu
queria realizar todas as expectativas e ia seguindo na direção.
Esperavam tudo da oradora da turma.
Colégio de freira é exigente e, embora eu viesse também de uma
família onde o pai era muito rígido, a disciplina da época das
freiras me retraía ainda mais.
Lembro que no ensaio do meu discurso de formatura a Irmã Sônia achou
que estava tudo muito romantizado, meloso demais. Mas a Irmã Celina
retrucou que aquele era meu estilo e que deveria permitir que
ficasse assim.
Ficou. Agradou e fui aplaudida. Fiz rir e chorar. E me dei conta que
poderia direcionar platéias apenas com palavras.
Na Universidade já não me sentia mais tão escritora. Na Graduação de
Letras um professor me tirou a ilusão. Disse que eu era romântica
demais, melosa até (eu já conhecia esse veredicto) e que esse estilo
tinha acabado. Eu não tinha futuro. Assim. Na bucha. Minha vontade
de escrever qualquer coisa que cheirasse a literatura acabou.
Apertei o botão Stop e fiquei assim tanto tempo que nem me lembro
quando recomecei a escrever. Acho que depois de anos, quando senti
que não estava realizada somente como mãe e que estava faltando
alguma coisa a mais nessa minha jornada.
A opção por não-trabalhar-fora-de-casa trouxe consigo a vontade de
realizar aquele velho sonho... Ah, tão antigo que quase não mais
existia. Mas aquela chama tão débil voltou devagarinho e eu, entre
uma louça e um cozido, entre tarefas da filha e reunião de mães, fui
escrevendo e registrando emoções que escondia em gavetas. A cada dia
refazia o que escrevera no dia anterior e assim ia guardando as
primeiras páginas do meu prometido livro.
Mas eu ainda tinha medo. Ainda era a garotinha do colégio com medo
de mostrar os deveres ao professor. E as gavetas continuaram a
guardar meus tesouros e a transbordar de romantismo até que surgiu
uma novidade que modificou meu comportamento totalmente: a internet.
Nos grupos de literatura passei a interagir com outras tantas
pessoas tímidas que também tinham o sonho secreto de escrever um
livro e também tinham as mesmas ansiedades e medos e pretensões. E
também eram românticas...
No mundo cibernético passei a me moldar diferente e surgiu uma
pessoa mais solta, irreverente, criativa e amante da liberdade de
expressão.
Passei a conviver diariamente com centenas de escritores e leitores.
Meus escritos deixaram de ser arquivos mortos e passaram a circular
no mundo internáutico com uma rapidez impressionante.
Dei-me conta que tudo podia ser quando escrevia. Comecei a usar
minha imaginação, memória, sentimento, emoção tudo em uníssono.
E deu certo. Meus livros passaram do virtual para o mundo dito real.
Primeiro em Antologias com outros escritores e depois o meu livro
solo, o "SÓ POESIA".
Realizei a minha promessa que fiz lá atrás, lembram? Eu lembro.
Nunca esqueci.
Eu escrevi o livro. Já plantei a árvore. Já tive a filha. O que
falta mais? Ah, falta muito. Muito mais...