10/03/2007
Ano 10 - Número 519


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Tempos da nona


 

Quando criança, lembro tão bem, íamos na casa da nona, depois da janta. Ficávamos todos na grande cozinha a conversar.

Minha mãe falava com meu avô em italiano, e eu me punha, atenta, a escutar, mas nada entendia. Fingia que entendia, mas o bordado não saía do pano. Me contentava com o som gostoso das vozes, como se fossem segredos contados ao pé do ouvido. Ficava meio grogue, deixando-me levar pelo som letárgico das falas em dialeto, e aquela cantilena me dava um sono... e de mais nada eu tinha medo.

Queria que o tempo parasse para ficar ali, assim, sentada ao pé dos adultos, no chão vermelho e bem encerado da cozinha. Queria ficar ali, assim, esperando o café com leite e o pão da nona que sempre enchia a mesa farta, a polenta fria, que sempre sobrava do almoço, o queijo "guitchi-guitchi", (um queijinho bem magro que fazia esse som ao apertá-lo, feito pela nona Corina, que na verdade era minha bisnona), o salame, a mortadela... Tudo feito em casa. Dá água na boca só de lembrar!

Quando já os olhos queriam colar, voltávamos para casa, a pé, pelas ruas escuras. Naquela época não tinha iluminação nas ruas do Rio Maina. Minha irmã mais nova ia no colo. Nesse tempo o meu irmão caçula, o Bertino, não era nascido.

Então, nessa hora, eu tinha medo. Muito medo. Agarrava a calça do meu pai e, de olhos bem fechados, pé ante pé, só os abria em casa, tendo até a alma suada.

Lembro da sensação de colocar o pé no escuro sem saber onde o estaria colocando. Lembro do barulho dos nossos passos no silêncio da noite. Lembro do carinho quente da cama, depois desta caminhada. Lembro...

Feliz lembrança, de um tempo gostoso. Tempo tão fugidio! Lembranças tão boas, de deixar a alma lavada.

 

(10 de março/2007)
CooJornal no 519


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br