Quando criança, lembro tão bem, íamos
na casa da nona, depois da janta. Ficávamos todos na grande cozinha
a conversar.
Minha mãe falava com meu avô em italiano, e eu me punha, atenta, a
escutar, mas nada entendia. Fingia que entendia, mas o bordado não
saía do pano. Me contentava com o som gostoso das vozes, como se
fossem segredos contados ao pé do ouvido. Ficava meio grogue,
deixando-me levar pelo som letárgico das falas em dialeto, e aquela
cantilena me dava um sono... e de mais nada eu tinha medo.
Queria que o tempo parasse para ficar ali, assim, sentada ao pé dos
adultos, no chão vermelho e bem encerado da cozinha. Queria ficar
ali, assim, esperando o café com leite e o pão da nona que sempre
enchia a mesa farta, a polenta fria, que sempre sobrava do almoço, o
queijo "guitchi-guitchi", (um queijinho bem magro que fazia esse som
ao apertá-lo, feito pela nona Corina, que na verdade era minha
bisnona), o salame, a mortadela... Tudo feito em casa. Dá água na
boca só de lembrar!
Quando já os olhos queriam colar, voltávamos para casa, a pé, pelas
ruas escuras. Naquela época não tinha iluminação nas ruas do Rio
Maina. Minha irmã mais nova ia no colo. Nesse tempo o meu irmão
caçula, o Bertino, não era nascido.
Então, nessa hora, eu tinha medo. Muito medo. Agarrava a calça do
meu pai e, de olhos bem fechados, pé ante pé, só os abria em casa,
tendo até a alma suada.
Lembro da sensação de colocar o pé no escuro sem saber onde o
estaria colocando. Lembro do barulho dos nossos passos no silêncio
da noite. Lembro do carinho quente da cama, depois desta caminhada.
Lembro...
Feliz lembrança, de um tempo gostoso. Tempo tão fugidio! Lembranças
tão boas, de deixar a alma lavada.