Nossos traumas são gerados na infância?
Muitos? Sim. A maioria. Todos? Não. Nem tudo é traumático nos
primeiros anos da nossa vida. Um exemplo é este episódio da minha
infância-quase-adolescência.
Tinha eu uns dez anos (lá pelos idos de 63). Todos os dias íamos na
venda do nono para comprar algo que estivesse faltando em casa.
Naquele tempo, as ruas do Rio Maina ainda não eram calçadas e
andávamos nos barrancos, aos trancos. Eu usava um vestido bem
rodado, de cintura marcada. Nos pés, sandálias havaianas. Cabelos
compridos ao vento. Numa das mãos a "cardeneta" para marcar as
compras. Só se pagava no fim do mês quando o pai recebia o salário
da mina. Ele era capataz e eu me orgulhava disso, fosse o que fosse
que isso significava. Eu sabia que era um cargo importante.
Mas deixem-me voltar. Eu estava a caminho da venda do nono, andando
bem exibida e olhando para os lados para ver se tinha platéia.
Naquela hora (umas 10 da manhã) todos estavam em suas tarefas
domésticas.
Passei pela D. Rosa (o Toninho estava na aula naquele horário...).
Passei pela D. Ernesta, fui andando distraída e nem notei que o
portão do seu Írio estava aberto. Quando me dei conta, já era tarde.
Ali tinha um baita cachorro amarrado na corrente que fazia um
escarcéu cada vez que passava alguém na frente da casa. Mas
ficávamos tranqüilos pois estava amarrado e o portão sempre fechado.
Sempre?
Não naquele dia! O portão estava escancarado e o cachorro soltinho
da silva. Quando meu cérebro tomou conhecimento, minhas pernas já
estavam em desabalada corrida.
O cachorro enorme, um pastor alemão (que chamávamos de "policial")
veio com tudo pra cima de mim. E eu, corri em direção à estrada e
saltei na primeira coisa que me pareceu segura: a carroça do
açougueiro que passava naquele instante. Era uma daquelas carroças
de quatro rodas. Pulei na boléia junto com o rapaz que manobrava o
cavalo. Foi um pulo tão ágil que meu vestido fez ondas e eu me senti
uma pluma voando. Nunca me senti tão leve! E com o coração na boca e
bem acompanhada, fui até a venda do nono, sentada ao lado do meu
salvador, que na hora, deu-me a mão para que eu subisse na carroça.
O cachorro? Ficou babando, literalmente. E minhas sandálias? Sei lá
onde foram parar...
Hoje, quando me recordo, continuo fazendo o meu salto da salvação e
me sinto a mocinha de um filme que passa em câmera lenta. Vale a
pena relembrar. E posso dizer: aquele cachorro não me fez ficar com
medo de outros cachorros, não. Gosto deles todos. E já adotei vários
cachorros de rua. Nem tudo são traumas na nossa infância...