Eu não entendo nada de bois, embora
tenha sido criada no meio deles. Meus avós tinham para o gasto da
casa, quero dizer, tinham vacas com leite e gado para corte.
Vivia brincando nos pastos com bosta, sabe aquelas? Aliás, meus pais
se conheceram em uma guerra de bostas. E é uma história muito
romântica esta que vou lhes contar.
Minha mãe tinha ido visitar uns parentes, no Caravaggio (município
de Nova Veneza, Santa Catarina), bairro vizinho do Rio Maina, onde
ela morava.
Lá pelas tantas da tarde, minha mãe e as primas foram chupar
laranjas, mais precisamente, vergamotas. Naquela região, tem-se o
costume de separar terras com árvores frutíferas; na maioria das
vezes, com pés de vergamotas, que têm espinhos para evitar a saída
do gado e, ainda assim, os frutos são aproveitados.
Pois bem, estavam chupando as tais vergamotas e ouviram uma conversa
do outro lado das vergamoteiras, que eram as terras do João Ronchi
(meu avô paterno). Ficaram curiosas e, em silêncio, tentaram escutar
algo, mas o que ouviram foi um splashhhh! do lado delas. Era uma
enorme bosta de vaca, daquelas moles e bem frescas, que caiu bem
perto da minha mãe. Ainda meio surpresas com a petulância daqueles
"bugres", não perderam tempo: minha mãe foi à cata de munição e as
primas ajudaram-na a iniciar a batalha.
Era um tal de voar bosta para todos os lado, e minha mãe ficava
doidinha, evitando se sujar. Um tanto impossível, já que a melhor
munição era exatamente aquela mais mole...
Cessada a guerra, com sujos e embostados de ambos os lados, risadas
correndo soltas, as duas facções se encontraram e buon giorno daqui,
buon giorno de lá, meus futuros pais ficaram se olhando nos olhos
claros e, lá mesmo, no romântico cenário rural, marcaram de se
encontrar na domingueira. Ali, naquela guerra de bosta, eu já era um
projeto divino...