Quando começou a participar de grupos
na internet, apareceu aquele e-mail em sua caixa de correio muito
gentil. Carinhoso até. Dizia que admirava seus escritos, suas
formatações, sua arte, seu rosto. De onde a conhecia? De uns
repasses de amigos. E-mail-vai-e-mail-vem, conversavam diariamente.
Ele sempre gentilíssimo. Ela embevecida com tanto carinho escrito. E
embora fosse um carinho cheio de erros gramaticais, ela relevava.
Estava feliz com seu virtual e ignorante novo amor.
Ela escrevia bem, formatava bem, era inteligente. Ele sabia como
conseguir os favores que desejava dela.
Num dia pedia que desse uma olhada na poesia e corrigisse os erros
que o corretor ortográfico deixara passar. Noutro, pedia que
formatasse aquele poema (não era lindo?) de um amigo seu. E mais
adiante começou a pedir que formatasse seus próprios poemas. Poemas
de amor que ela, embevecida, imaginava que fossem dirigidos a ela.
Achara alguns destes poemas um tanto quanto familiares... mas nem se
deu ao trabalho de questionar. Nem tinha motivos para achar que
poderiam ser poemas de outrem, assinados pelo Sr. Virtual. Formatava
com carinho e os colocava na rede. Ai, como ele escrevia bem algumas
vezes! Nem parecia a mesma pessoa que teclava no seu Outlook, cheia
de erros grosseiros e primários.
Um dia, apareceu um novo personagem naquela lista. E usava suas
formatações sem dar-lhe os devidos créditos. E, ainda por cima,
assinava o poema como sendo seu! Mas como? Aquele poema ela tinha
formatado para o Sr. Virtual há apenas uns dois dias, e ele dizia
ser dele! Que história era aquela?
Muitos pvts depois, instalou-se a inimizade, a raiva não dita, a
inveja mal disfarçada. A recém-chegada se posicionou como dona do
poema, sem chances de conversa.
Ela, a que chegara antes, ficou quietinha em seu canto, mas na
retranca. As conversas com o Sr. Virtual foram tomando outro rumo,
pois ele defendia a sua inimiga-virtual. Começou a ter uma pontinha
de desconfiança que foi crescendo a cada pesquisa que fazia.
Foi em seus arquivos, onde tinha todos os poemas do Sr. Virtual.
Pegou um por um e foi no Google. Colocava a primeira frase e
aparecia o poema em algum lugar da NET.
Bingo! Um a um foram aparecendo e surgindo em seu monitor. Todos
tinham um dono. Nenhum era do Sr. Virtual. Nenhum! A cada descoberta
ficava mais desiludida.
Sentia raiva, misturada à humilhação de ter sido ludibriada tão
primariamente. Nada era dele! Não podia acreditar! Até poetas
renomados ele teve a ousadia de plagiar. Que cara-de-pau! Por isso
ela parecia reconhecer certos versos. Mas como ninguém tem decorado
todos os versos de todos os autores... Como poderia saber?
Ah, mundo de gente insana! Ah, internet ingrata! A primeira decepção
cibernética doeu em seus versos.
E começou uma guerra sua, particular, para dar os verdadeiros nomes
aos poemas da dupla virtual: "Ladra e Ladrãozinho".
Conclusão: tudo o que eles enviavam como sendo de suas autorias e
que eram considerados bons, ótimos, liiiindos, eram poemas que
tinham dono. Os que eram ruins, horríveis e cheios de erros
gramaticais eram deles. Mais um caso de gentinha sem competência que
queria aparecer na NET e não sabia como.
Tem muita gente assim por aí. Mas ela ficou atenta. Já sabia
reconhecer as peças deste xadrez. Cheque-mate!