21/04/2007
Ano 10 - Número 525


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Primeira decepção cibernética


 

Quando começou a participar de grupos na internet, apareceu aquele e-mail em sua caixa de correio muito gentil. Carinhoso até. Dizia que admirava seus escritos, suas formatações, sua arte, seu rosto. De onde a conhecia? De uns repasses de amigos. E-mail-vai-e-mail-vem, conversavam diariamente. Ele sempre gentilíssimo. Ela embevecida com tanto carinho escrito. E embora fosse um carinho cheio de erros gramaticais, ela relevava. Estava feliz com seu virtual e ignorante novo amor.

Ela escrevia bem, formatava bem, era inteligente. Ele sabia como conseguir os favores que desejava dela.

Num dia pedia que desse uma olhada na poesia e corrigisse os erros que o corretor ortográfico deixara passar. Noutro, pedia que formatasse aquele poema (não era lindo?) de um amigo seu. E mais adiante começou a pedir que formatasse seus próprios poemas. Poemas de amor que ela, embevecida, imaginava que fossem dirigidos a ela.

Achara alguns destes poemas um tanto quanto familiares... mas nem se deu ao trabalho de questionar. Nem tinha motivos para achar que poderiam ser poemas de outrem, assinados pelo Sr. Virtual. Formatava com carinho e os colocava na rede. Ai, como ele escrevia bem algumas vezes! Nem parecia a mesma pessoa que teclava no seu Outlook, cheia de erros grosseiros e primários.

Um dia, apareceu um novo personagem naquela lista. E usava suas formatações sem dar-lhe os devidos créditos. E, ainda por cima, assinava o poema como sendo seu! Mas como? Aquele poema ela tinha formatado para o Sr. Virtual há apenas uns dois dias, e ele dizia ser dele! Que história era aquela?

Muitos pvts depois, instalou-se a inimizade, a raiva não dita, a inveja mal disfarçada. A recém-chegada se posicionou como dona do poema, sem chances de conversa.

Ela, a que chegara antes, ficou quietinha em seu canto, mas na retranca. As conversas com o Sr. Virtual foram tomando outro rumo, pois ele defendia a sua inimiga-virtual. Começou a ter uma pontinha de desconfiança que foi crescendo a cada pesquisa que fazia.

Foi em seus arquivos, onde tinha todos os poemas do Sr. Virtual. Pegou um por um e foi no Google. Colocava a primeira frase e aparecia o poema em algum lugar da NET.

Bingo! Um a um foram aparecendo e surgindo em seu monitor. Todos tinham um dono. Nenhum era do Sr. Virtual. Nenhum! A cada descoberta ficava mais desiludida.
Sentia raiva, misturada à humilhação de ter sido ludibriada tão primariamente. Nada era dele! Não podia acreditar! Até poetas renomados ele teve a ousadia de plagiar. Que cara-de-pau! Por isso ela parecia reconhecer certos versos. Mas como ninguém tem decorado todos os versos de todos os autores... Como poderia saber?

Ah, mundo de gente insana! Ah, internet ingrata! A primeira decepção cibernética doeu em seus versos.

E começou uma guerra sua, particular, para dar os verdadeiros nomes aos poemas da dupla virtual: "Ladra e Ladrãozinho".

Conclusão: tudo o que eles enviavam como sendo de suas autorias e que eram considerados bons, ótimos, liiiindos, eram poemas que tinham dono. Os que eram ruins, horríveis e cheios de erros gramaticais eram deles. Mais um caso de gentinha sem competência que queria aparecer na NET e não sabia como.

Tem muita gente assim por aí. Mas ela ficou atenta. Já sabia reconhecer as peças deste xadrez. Cheque-mate!


 

(21 de abril/2007)
CooJornal no 525


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br