26/05/2007
Ano 11 - Número 530


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Avó da Vitória


 

A primeira vez que me vi com um bebê recém-nascido nos braços eu tinha quase trinta anos e, mesmo assim, sentia-me como uma menina sem experiência, saindo da adolescência, insegura, cheia de dúvidas, frágil e dependente.

A maternidade me chegou como um susto, apesar de esperada. Senti-me perdida em meio às fraldas, trocas, mamadas, mamadeiras, chás, cólicas e cocôs. Vi-me  incapaz de cuidar daquele serzinho exigente e tão frágil. A depressão pós-parto me atingiu em cheio e sorrateiramente. E eu fiquei em meio a uma tempestade sem bússola.

Só consegui tomar as rédeas da minha vida novamente após os quarenta dias com o auxílio de toda a família e dos médicos.

Apesar da minha filha ser uma menina linda, inteligente, amorosa, delicada, sensível, esperta e todos os adjetivos que se puder encontrar eu não quis ter outros filhos. Tive medo de encarar outra gravidez e outro parto. E desestimulei a maternidade à minha filha que nem por isso se sentiu desestimulada e quis engravidar.

Quando me vi de novo com um bebê entre os braços, já estava com mais de cinqüenta anos e a sensação foi bem diferente. Pude apreciar de camarote e abençoar aquela criaturinha sem temer que ela quebrasse ao mínimo toque de minhas mãos.

Minha filha, mãe do meu novo bebê, é mais forte que a mãe que a teve. É mais corajosa. Mais otimista. Mais saudável. Enfim, mais natural. Mais mãe. Já pensa em ter mais filhos e eu não me apavoro com a possibilidade de ter crianças ao meu redor porque não virão de mim, mas serão minhas também. É o milagre de ser avó, a dita mãe com mel, que tem todos os benefícios da maternidade sem as agruras desta. Agora posso ser a mãe relax que não consegui ser quando minha Samanta nasceu e ao ajudar minha filha a cuidar de sua filhinha e passar a ela a tranqüilidade que agora sinto, deixo-a segura também.

Como descrever essa emoção que me atingiu sem ser esperada? Quando ouvia comentários acerca do fato de ser avó, achava tudo exagero piedoso, fita melosa. Mas qual! Estou envolvida em redes de ternura por essa criaturinha pequenina que veio para encantar nossas vidas. Fico embevecida a cada careta, muxoxo, pum ou arroto da Vitória. Mais que preocupações, agora terei encantamentos. E descobri uma coisa: a Vitória herdou os meus dedos do pé. E tem o meu signo. É taurina. Será amada e muito paparicada. Logo aprenderá a se comunicar com o mundo via internet. Será um cyberbebê. Seremos uma dupla e tanto!

Como podem observar, nem fiquei babona nem nada. Somente sou uma avó. Simples assim.

 

(26 de maio/2007)
CooJornal no 530


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br