E não se dava
importância ao fato do buraco estar naquele lugar... Por lá era
fácil de passar para o terreno do vizinho para brincar. E nem
precisava consertar a cerca.
Não havia ladrões naquele tempo tão antigo da minha infância.
Só o bicho-papão, mas bicho-papão não entra por buracos da cerca.
Ele simplesmente aparece quando quer. Magicamente. Ou seria melhor
dizer... sinistramente?
Mas eu estava falando daquele buraco na cerca da minha infância onde
conseguíamos passar para o outro lado, onde as brincadeiras eram
mágicas. Não precisávamos fazer-de-conta. Lá do outro lado era real.
E as brincadeiras eram verdadeiras aventuras que duravam um dia
inteiro e se prolongavam pelos sonhos risonhos em fronhas brancas
como a inocência que queríamos perpetuar.
Todos os dias, passávamos para o outro lado e quando retornávamos
estávamos mais experientes e ricos um tantão assim.
E de passar todos os dias pelo buraco na cerca, crescemos.
A mágica não existe mais. Conservo o medo do bicho-papão. Mas quem
não tem?