09/06/2007
Ano 11 - Número 532


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Tinha um buraco na cerca


 

E não se dava importância ao fato do buraco estar naquele lugar... Por lá era fácil de passar para o terreno do vizinho para brincar. E nem precisava consertar a cerca.

Não havia ladrões naquele tempo tão antigo da minha infância.

Só o bicho-papão, mas bicho-papão não entra por buracos da cerca. Ele simplesmente aparece quando quer. Magicamente. Ou seria melhor dizer... sinistramente?

Mas eu estava falando daquele buraco na cerca da minha infância onde conseguíamos passar para o outro lado, onde as brincadeiras eram mágicas. Não precisávamos fazer-de-conta. Lá do outro lado era real. E as brincadeiras eram verdadeiras aventuras que duravam um dia inteiro e se prolongavam pelos sonhos risonhos em fronhas brancas como a inocência que queríamos perpetuar.

Todos os dias, passávamos para o outro lado e quando retornávamos estávamos mais experientes e ricos um tantão assim.

E de passar todos os dias pelo buraco na cerca, crescemos.

A mágica não existe mais. Conservo o medo do bicho-papão. Mas quem não tem?

 

(09 de junho/2007)
CooJornal no 532


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br