Esse lapso de tempo
entre o acabar do teu amor e o continuar da minha dor fez da minha
vida um amontoado de lembranças que, por mais que eu queira, não
consigo ordenar.
Ficam todas (elas, as lembranças) espalhadas, esperando que as reúna
por ordem alfabética, quiçá por tempo de uso ou, ainda, por
felicidades que trouxeram ou, ainda, pelos estragos que causaram.
E ficam aqui e acolá, atravancando caminhos, deixando-me
impossibilitada de colocar novos sentimentos, ou novos amores, ou
mesmo dores que por vezes fazem bem, embora amargas e travosas.
E adio a faxina por cansaço puro, por preguiça casual, por medo de
rever antigos cantinhos submersos em cartas amassadas e descoloridas.
Tenho medo de te encontrar em fitas e folhas secas que ainda dizem
da minha saudade e da tua indiferença que já nem faz mais tanta
diferença.
Tenho medo das tuas letras em rimas quebradas, dizendo amores que já
se desfizeram nas rodas do tempo. Tenho medo de ver que esse tempo
(o meu tempo) se foi. Tenho medo de ver que fostes para sempre nas
areias de outras praias.
Em qual ampulheta deixei meu tempo escorrer?