Estes dias de julho com
este frio intenso me trazem à memória os dias de férias da minha
infância. Naquele tempo, não fazíamos viagens ao exterior, não
tínhamos hotel-fazenda para ir, colônia de férias para ficar,
shoppings, cinemas ou computadores e jogos virtuais para nos
distraírem.
O máximo que fazíamos era ir à tarde brincar no pasto do nono Bepi
com os primos. Ficávamos o tempo todo naquela imensidão de verde,
chupando laranjas do pé, brincando de pegar, de esconder, de pular
corda ou de anel ou ainda explorando os recantos escondidos das
fontes onde a nona lavava as roupas.
Nossa faces rosadas, os lábios rachados pelo frio e as pernas
brancas de tão secas, pés descalços, nada disso tinha importância
num tempo em que o que interessava era o respirar da liberdade. E
depois, o café com leite reforçado da nona com pão de casa,
cavaquinho, queijo, salame e polenta dava mais energia para novas
folias.
Quando se ficava em casa, aproveitava-se para bordar e colocar em
dia os trabalhos manuais. A minha mãe sabia todos os pontos de
bordado e o que não sabia a gente aprendia com as amigas. Bordávamos
paciência ponto a ponto, colorindo toalhas e lençóis com capricho em
uma época em que o tempo parecia ir mais devagar.
Minha irmã era a mais caprichosa nos bordados e eu, sempre a
relapsa. Assim, eu trocava tarefas de casa pelos serviços de
bordados da minha irmã, ou seja, eu fazia a parte dela nas
obrigações diárias (lavar a louça, varrer a casa) enquanto ela
bordava minhas toalhas, que iam para a exposição no final do ano na
escola.
Outra coisa que fazíamos muito nas férias de julho: ler debaixo das
cobertas com o sol da tarde entrando pelas janelas, voltadas para o
oeste. Era delicioso "viajar" naquele aconchego com o livro nas
mãos. A tarde passava tão rapidamente que eu tinha pena que o dia
acabasse.
Lembro também de um tempo mais atrás, quando éramos ainda mais
pequenos e ainda brincávamos de casinha. Levávamos cobertores para o
quintal e ficávamos enrolados neles, deitados na grama, olhando as
nuvens, correndo ligeiras num céu muito azul.
Porque este frio me desperta doces memórias eu desembrulho minha
infância, envolta em papéis e fitas e vejo junto, guardadinho com
cuidado, um pedaço do meu coração.