28/07/2007
Ano 11 - Número 539


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



 As férias da minha infância
 

Estes dias de julho com este frio intenso me trazem à memória os dias de férias da minha infância. Naquele tempo, não fazíamos viagens ao exterior, não tínhamos hotel-fazenda para ir, colônia de férias para ficar, shoppings, cinemas ou computadores e jogos virtuais para nos distraírem.

O máximo que fazíamos era ir à tarde brincar no pasto do nono Bepi com os primos. Ficávamos o tempo todo naquela imensidão de verde, chupando laranjas do pé, brincando de pegar, de esconder, de pular corda ou de anel ou ainda explorando os recantos escondidos das fontes onde a nona lavava as roupas.

Nossa faces rosadas, os lábios rachados pelo frio e as pernas brancas de tão secas, pés descalços, nada disso tinha importância num tempo em que o que interessava era o respirar da liberdade. E depois, o café com leite reforçado da nona com pão de casa, cavaquinho, queijo, salame e polenta dava mais energia para novas folias.

Quando se ficava em casa, aproveitava-se para bordar e colocar em dia os trabalhos manuais. A minha mãe sabia todos os pontos de bordado e o que não sabia a gente aprendia com as amigas. Bordávamos paciência ponto a ponto, colorindo toalhas e lençóis com capricho em uma época em que o tempo parecia ir mais devagar.

Minha irmã era a mais caprichosa nos bordados e eu, sempre a relapsa. Assim, eu trocava tarefas de casa pelos serviços de bordados da minha irmã, ou seja, eu fazia a parte dela nas obrigações diárias (lavar a louça, varrer a casa) enquanto ela bordava minhas toalhas, que iam para a exposição no final do ano na escola.

Outra coisa que fazíamos muito nas férias de julho: ler debaixo das cobertas com o sol da tarde entrando pelas janelas, voltadas para o oeste. Era delicioso "viajar" naquele aconchego com o livro nas mãos. A tarde passava tão rapidamente que eu tinha pena que o dia acabasse.

Lembro também de um tempo mais atrás, quando éramos ainda mais pequenos e ainda brincávamos de casinha. Levávamos cobertores para o quintal e ficávamos enrolados neles, deitados na grama, olhando as nuvens, correndo ligeiras num céu muito azul.

Porque este frio me desperta doces memórias eu desembrulho minha infância, envolta em papéis e fitas e vejo junto, guardadinho com cuidado, um pedaço do meu coração.

 

(28 de julho/2007)
CooJornal no 539


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br