13/10/2007
Ano 11 - Número 550


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



MEMÓRIA TEM CHEIRO?



 

Tenho mania com cheiros. Não suporto perfumes fortes. Sou muito sensível de nariz... Por isso só uso um tipo de perfume e tem de ser muito suave. Fico anos e anos usando o mesmo perfume... E um belo dia, sem mais nem menos, eu mudo para outro, também suave. E fico mais outros tantos anos sem mudar. Acho que acostumo com o cheiro e, como gosto de rotinas, acabo me sentindo bem com o cheirinho familiar.

O engraçado é que, quem vive à minha volta, acaba me identificando: cheirinho de dete... e também gosta. Perfumes e cheiros são tão ricos e tão peculiares que dariam estudos e tratados imensos.

O olfato é um dos sentidos mais primitivos no homem e atentar para os cheiros em particular é uma maneira de exercer esta parte primitiva e instintiva que existe em nós. Os aromas chegam pelo nariz, tocam diretamente o coração e, alguns deles fixam-se na lembrança para sempre.

Comecem a sentir os odores que estão à sua volta e se deixem levar pelas lembranças que cada um evoca. Odores e memória ficam ligados forever. Não é à toa que certos odores remetem às cenas que vivemos. Para mim, isso funciona como um botão que é acionado na hora em que o nariz dá a primeira fungada. Lembranças me vêm à beira, logo que sinto algum cheiro: Cheiro do primeiro namorado, era cheiro de Bem-me-quer (perfume da Avon), cheiro do primeiro dia de aula, igual a cheiro de goiaba, cheiro de churrasco temperado me lembra festa de igreja, perfume de lírios brancos lembram-me dia de finados, cheirinho de lavanda é cheirinho da Samanta quando bebê, cheiro de lençol de algodão branco lavado lembra cama de mãe, cheiro de polenta me lembra a casa da nona Leocádia, cheiro de casca de vergamotas me faz voltar aos dias de férias de julho, nos pastos do nono Bepi... E assim, minhas lembranças tomam conta de mim e perfumam meus sentidos.
Agora é a sua vez de dizer quais os cheiros que trazem boas (ou más) lembranças...

P.S. uma indicação de leitura para quem é ligado em cheiros como eu:
"O perfume" de Patrick Süskind.
Excelente leitura.

"Quem se atrever a ler esse romance vai conseguir sentir os cheiros os mais diverso que permeiam a trama. Desde o cheiro de peixe das bancas fétidas onde nasceu o personagem incrível, Grenouille, desta história até os mais insólitos aromas das meninas que ele elimina para conseguir fabricar seus perfumes.
Nascido estranhamente sem cheiro, o personagem busca o perfume que inebriará multidões e em busca deste aroma vive sem lei e sem fronteira.
Ambientado na França do século XVIII, "O perfume" é um romance que consegue ultrapassar as linhas do escrito e paira nas suas mãos como um cheiro indelével."
Vale a pena ler!
E o romance já virou filme também.


 

(13 de outubro/2007)
CooJornal no 550


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br