20/10/2007
Ano 11 - Número 551


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



O ANEL



 

Aos meus sete anos, comecei a ir para a Catequese para aprender a doutrina da religião católica, como faziam todas as crianças da minha idade, no meu bairro.

A doutrina era aos sábados, à tarde, na igreja e era dada por catequistas , que eram mocinhas da comunidade.

Sentávamos nos bancos da igreja, e eu ficava distraída, olhando os afrescos bem pintados da igreja. Eram muitos e todos contando alguma história da Bíblia: o dilúvio e Noé, com os animais todos enfileirados; a sarça ardente com o "fulano" espantado na frente (agora esqueci o nome, e na época eu nem sabia também...); a criação do homem num jardim maravilhoso... Hã?
- Hã? Hum... O quê?
Era eu, toda atrapalhada, tentando voltar à realidade e tentando responder à catequista:
- O pai é Deus? -- perguntava ela a todos (ainda bem).
E todos gritavam bem alto a resposta, fazendo ecoar na igreja, que me parecia enorme pra minha meninice:
- Sim, o Pai é Deeeeeeus...
- O Filho é Deus? a catequista prosseguia.
E nós, tentando parecer muito entusiasmados:
- Siiiiimmmm! O Filho é Deeeeeeus!

E lá vinha mais uma pergunta misteriosa:
- O Espírito Santo é Deus? A esta altura, eu já estava confusa, mas respondia prontamente, tudo decorado, na ponta da língua:
- Siiiimmm! O Espírito Santo é Deeeeus!

Até hoje, lembro destas perguntas, e as faço ainda...

Mas, deixa estar que nesse dia , eu havia passado no bar, em frente à igreja, onde comprávamos as guloseimas todas, e tinha comprado as balas antes da Doutrina, ao invés de comprá-las na volta. Sempre tínhamos uns trocados para as balas e picolés, mas sempre deveriam ser comprados na volta.

Eu havia comprado umas balas que vinham em caixinhas fechadas com brindezinhos de plásticos e que exerciam uma tremenda fascinação em mim. Naquele dia veio um anel de metal dourado com pedrinha de plástico colorido.

Chupei a bala (deliciosa), coloquei o anelzinho no dedo e durante toda a doutrina fiquei a botar e tirar o anel do dedo. Chegou até a cair a tal da pedrinha colorida.
Então, coloquei o anel na boca e comecei a mastigar o metal. Mastiga cá, amassa lá, morde acolá, e... Ops! Glup...Hgun... ENGOLI!
- Engoli o anel! -- falei pra catequista, atenta aos catequizandos.

E desandei num choro convulso, apavorada, fazendo a catequista ficar endoidecida atrás de água (para me fazer engolir melhor o anel, eu pensei na hora).

Muitas águas e lágrimas depois, voltamos à doutrina , mas todos olhavam para mim como se eu fosse uma misteriosa engolidora de anéis...

Pior foi chegar em casa, com minha irmã mais nova fofoqueira, alardeando pra quem quisesse ouvir:
- Mãe, a Dete engoliu um anel!
E a minha mãe depois de ouvir toda a história, fala muito faceira e calma:
- Ainda bem que a Dete mastigou bem o anel, antes de engolir.


 

(20 de outubro/2007)
CooJornal no 551


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br