10/11/2007
Ano 11 - Número 554


ARQUIVO
 ODETE BALTAZAR


 

 

Odete Ronchi Baltazar



Diretamente de Tigipió



 

Minha casa de Floripa está de pernas pro ar porque resolvi pintá-la de novo. E para não ficar vendo tanta reviria, mudei com mala e gatos para a casa do sítio. Vou ficar por aqui, no mato, sem me estressar que é melhor, enquanto durar a barafunda por lá.

Enquanto isso, vou levando a vida, pacata, devagar e silenciosamente que aqui o tempo corre lento. É sério.

A gente sente uma urgência de fazer tudo correndo, mas lá fora, a natureza não está nem aí. Segue sossegada, calminha e no horário de sempre. Que horário de verão, qual nada! E roça precisa deste horário maluco?

É só ficar uns dias por aqui e sentir o ritmo da natureza que a gente se adapta depressinha: acordar com o som dos passarinhos e saracuras e dormir com a cantiga de ninar dos ribeirões.

Já preparei alguns enfeites de natal que na roça é tempo de chegar o Menino Jesus. No interior, o povo tem costume de armar o presépio com todos os personagens. Papai Noel é coisa da cidade.

Enquanto fico assim sozinha, aproveito pra pensar sobre a solidão e porque eu gosto tanto de quietude...

Gosto de fazer as coisas no meu tempo sem exigências de horário, e embora eu seja apegada a rotinas, consigo estabelecer um mínimo de rituais necessários à minha neurótica sobrevivência. Claro, porque mesmo no mato eu ainda continuo com minhas manias e o tal do TOC que vai comigo aonde eu for.

Como e durmo, arrumo e lavo, varro e caminho somente quando dá vontade, mas tudo dentro de uma rotina estipulada por uma ordem minha e somente minha. Eu sou minha própria cobrança!

Gostaria de poder ficar mais na internet, mas a conexão ainda é precária. Não se pode ter tudo, não é mesmo?

O que mais me encanta neste lugar é o silêncio absoluto e total. Só rumorejar dos ribeirões e o canto dos passarinhos... e lá uma vez ou outra, um avião que passa láááááa na imensidão do azul, tão pequenino que mais parece miragem.

Isto é o paraíso? Se é, por que tenho de voltar à civilização?

Uma coisa é certa: a gente acaba se adaptando ao lugar em que vive.

Quando estou na cidade, adoro ficar por lá. Tenho tudo à mão. Comodidades que não quero abdicar.

E quando estou aqui, vivo intensamente cada momento, mesmo estando longe de certos confortos da cidade.

Acho que sou camaleoa. Disfarço-me em cada ambiente que vivo. Bom deste jeito... Posso me adaptar a qualquer lugar.

E você? Consegue viver bem no seu lugar?

 

(10 de novembro/2007)
CooJornal no 554


Odete Ronchi Baltazar,
escritora e poeta
Florianópolis - SC
odeterb@terra.com.br