Minha casa de Floripa
está de pernas pro ar porque resolvi pintá-la de novo. E para não
ficar vendo tanta reviria, mudei com mala e gatos para a casa do
sítio. Vou ficar por aqui, no mato, sem me estressar que é melhor,
enquanto durar a barafunda por lá.
Enquanto isso, vou levando a vida, pacata, devagar e silenciosamente
que aqui o tempo corre lento. É sério.
A gente sente uma urgência de fazer tudo correndo, mas lá fora, a
natureza não está nem aí. Segue sossegada, calminha e no horário de
sempre. Que horário de verão, qual nada! E roça precisa deste
horário maluco?
É só ficar uns dias por aqui e sentir o ritmo da natureza que a
gente se adapta depressinha: acordar com o som dos passarinhos e
saracuras e dormir com a cantiga de ninar dos ribeirões.
Já preparei alguns enfeites de natal que na roça é tempo de chegar o
Menino Jesus. No interior, o povo tem costume de armar o presépio
com todos os personagens. Papai Noel é coisa da cidade.
Enquanto fico assim sozinha, aproveito pra pensar sobre a solidão e
porque eu gosto tanto de quietude...
Gosto de fazer as coisas no meu tempo sem exigências de horário, e
embora eu seja apegada a rotinas, consigo estabelecer um mínimo de
rituais necessários à minha neurótica sobrevivência. Claro, porque
mesmo no mato eu ainda continuo com minhas manias e o tal do TOC que
vai comigo aonde eu for.
Como e durmo, arrumo e lavo, varro e caminho somente quando dá
vontade, mas tudo dentro de uma rotina estipulada por uma ordem
minha e somente minha. Eu sou minha própria cobrança!
Gostaria de poder ficar mais na internet, mas a conexão ainda é
precária. Não se pode ter tudo, não é mesmo?
O que mais me encanta neste lugar é o silêncio absoluto e total. Só
rumorejar dos ribeirões e o canto dos passarinhos... e lá uma vez ou
outra, um avião que passa láááááa na imensidão do azul, tão
pequenino que mais parece miragem.
Isto é o paraíso? Se é, por que tenho de voltar à civilização?
Uma coisa é certa: a gente acaba se adaptando ao lugar em que vive.
Quando estou na cidade, adoro ficar por lá. Tenho tudo à mão.
Comodidades que não quero abdicar.
E quando estou aqui, vivo intensamente cada momento, mesmo estando
longe de certos confortos da cidade.
Acho que sou camaleoa. Disfarço-me em cada ambiente que vivo. Bom
deste jeito... Posso me adaptar a qualquer lugar.
E você? Consegue viver bem no seu lugar?